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Jogos de apostas

O governo sul-coreano abriu nos últimos dias a porta à criação de uma seleção conjunta com a vizinha Coreia do Norte para participar nas olimpíadas. A ideia surgiu após a reabertura de conversações entre os dois países, nas quais o desporto veio apaziguar a tensão política dos últimos meses com os ensaios militares de Kim Jong-Un.

A junção de esforços no hóquei feminino destes Jogos de Inverno é uma proposta inédita. No entanto, a intenção está longe de ter uma boa aceitação da selecionadora da Coreia do Sul, a norte-americana (de origem canadiana) Sarah Murray.

"Adicionar alguém na Coreia do Norte ou na Coreia do Sul, fazê-lo tão perto das Olimpíadas, é um pouco perigoso. Até pela química da equipa, porque as jogadoras já estão juntas há tanto tempo", disse.

A treinadora das jogadoras sul-coreanas recusa, porém, que o tema venha a ser uma eventual desculpa para os resultados: "Isso afeta as nossas jogadoras, mas não podemos deixar que isso nos incomode. Não podemos ter uma desculpa sobre o motivo pelo qual não funcionamos bem nas Olimpíadas. Temos de fazer o nosso melhor, independentemente do que está a acontecer connosco".

O desagrado com a proposta não se esgota no plano desportivo. A nível político, a fusão das duas equipas também não é consensual. O próprio ministro da Cultura, Desporto e Turismo da Coreia do Sul, Do Jong-Whan, sentiu a necessidade de vir a público dizer que as vagas das hoquistas do país não seriam prejudicadas por uma hipotética união com as colegas da Coreia do Norte.

"Em relação à equipa feminina de hóquei no gelo, as nossas 23 jogadoras permanecerão. Estamos a discutir formas de expandir a lista da equipa além das 23 jogadoras", frisou.

O caso gerou mesmo o lançamento de inúmeras petições online a contestarem a criação de uma só seleção coreana para o hóquei no gelo feminino.

Seul olha para os Jogos Olímpicos de Inverno como um meio para afirmar a paz com a Coreia do Norte. Contudo, muitos sul-coreanos preferem separar o desporto da política.

Guia básico para curtir a NHL

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Os esportes americanos ganham cada vez mais espaço no Brasil. Nas últimas duas semanas, o retorno da NFL foi um exemplo dessa força. Mais jogos televisionados, diversos sites especializados, um número de fãs que só aumenta… E uma liga exemplar, que infelizmente dura apenas seis meses. Mas para quem quer conhecer melhor outro esporte pouco explorado no país, a partir do dia 8 de outubro temos outro atrativo: o início da NHL (National Hockey League). Sim, o hóquei no gelo, aquele conhecido pela maioria por conta do filme dos Super Patos ou pelas recorrentes pancadarias entre os jogadores.

De fato, por ser um jogo de contato físico constante e divididas nada delicadas, as brigas são normais no hóquei. Uma tradição que cresceu no Canadá desde o século XIX, quando o esporte começou a se popularizar. Mas não são liberadas sem penalidades. Elas incluem um “código de conduta”, pré-estabelecido entre jogadores, técnicos e até mesmo árbitros. Geralmente, os jogadores são suspensos por cinco minutos. Ainda assim, configuram parte importante e até folclórica do hóquei.

Assim como na maioria dos esportes americanos, a NHL é fragmentada. Atualmente, são quatro divisões e duas conferências. Divisão do Pacífico e Divisão Central (Conferência Oeste); Divisão do Atlântico e Divisão Metropolitana (Conferência Leste). A diferença é que as equipes não se classificam pelo número de vitórias e derrotas, mas sim por um sistema de pontos. Dois pontos para uma vitória, um ponto para derrota na prorrogação ou nos shootouts e nenhum ponto para derrota em tempo regulamentar. Quem vencer na prorrogação com um atacante extra (sem goleiro), não leva ponto extra.

Na temporada regular, cada time disputa 82 jogos, entre outubro e abril. Os playoffs começam com o Wild Card: as quatro equipes que mais pontuaram e não conseguiram a classificação ficando entre os três (Oeste) ou quatro (Leste) primeiros de suas respectivas divisões se enfrentam (1º x 4º e 2º x 3º).

Na segunda fase, os classificados automaticamente (oito do Leste, seis do Oeste), se juntam aos dois vencedores do Wild Card para uma chave com 16 equipes (espécie de oitavas-de-final). A grande final do hóquei no gelo é a Stanley Cup. Ao contrário do futebol americano, por exemplo, as equipes não decidem o título em somente uma partida, mas em uma série de sete jogos, assim como no basquete. Enfrentam-se o campeão das Conferências Leste e Oeste.

O hóquei no gelo é o principal esporte no Canadá. Assim como existem campinhos de futebol em todos os cantos no Brasil, os ringues de patinação aparecem a cada esquina no país norte-americano. Em lugares mais frios, como Suécia, Finlândia, Rússia, Letônia e República Tcheca, o esporte também é muito popular. Nos EUA, fica atrás dos outros três mais famosos: futebol americano, basquete e beisebol.

Como é definida a tabela?
Dos 82 jogos na temporada regular, cada time joga 41 em casa e 41 fora. São quatro ou cinco jogos contra as equipes da respectiva divisão (29 partidas na Conferência Oeste, 30 na Conferência Leste). Além disso, cada time enfrenta todos os times que são da sua conferência, mas não da sua divisão, três vezes. (21 jogos no Oeste, 24 no Leste). Os restantes (32 no Oeste, 28 no Leste) são contra times da outra conferência.

Há uma exceção para a Conferência Oeste: um time de cada divisão joga uma partida a menos dentro da sua respectiva divisão, e uma a mais contra um time do restante da conferência. A tabela é definida de maneira que cada franquia da NHL jogue pelo menos uma vez em todas as arenas todo ano.

Cada partida da NHL é dividida em três períodos de 20 minutos cada, com intervalos de 15 minutos entre eles. Até a temporada 2005, existia o empate, hoje extinto. Conforme já explicado anteriormente, há a prorrogação. A duração é de cinco minutos, e os dois times, normalmente com seis jogadores, se enfrentam com quatro de cada lado. Quem marcar primeiro, leva. O ringue mede 61m x 26m, e é marcado por cinco linhas: uma no meio, duas linhas de impedimento e as linhas de fundo.

E como funciona o impedimento?
Se o disco ultrapassar a linha azul depois de um jogador de ataque, será marcado o offside (impedimento). Ou seja: não há a possibilidade de um atleta ficar “na banheira” do ringue. A área a partir de cada linha azul é considerada o setor ofensivo. Por isso, o caráter coletivo, onde todos ajudam em ambos os processos. Cada um, é claro, com sua respectiva função.

As posições
Não é difícil entender como funciona o posicionamento de um time de hóquei no gelo. O goleiro, obviamente, dispensa explicações. Atua com equipamentos diferentes e tem a área azul, em torno de sua trave, como um local exclusivo: ali, nenhum outro jogador pode tocá-lo. Se o fizerem, será marcada uma penalidade, a ser cobrada na área de faceoff. Há também os defensores, que permanecem predominantemente entre a trave e a linha azul, com a missão de evitar os gols adversários, os centers, aqueles que mais se movimentam e marcam os gols/oscilam na área central do ringue, e os wingers, geralmente caracterizados pelas assistências e também por atrapalhar a visão do goleiro adversário, utilizando os lados da área de jogo.

Tem brasileiro?
Um só. Robyn Regehr, defensor dos Los Angeles Kings, foi campeão da Stanley Cup no ano passado. Ele não jogou a final por conta de uma lesão, mas estava no elenco. Nascido em Recife, ele deixou o Brasil com nove meses de idade, não fala português e tampouco tem recordações do país natal. Filho de missionários, está atualmente com 34 anos.

Robyn foi draftado em 1998 pelo Colorado Avalanche, mas envolvido em uma troca, acabou no Calgary Flames, onde chegou a ser capitão da equipe. Ele ainda teve uma passagem de somente uma temporada pelo Buffalo Sabres, antes de chegar aos Kings. Foi campeão mundial de hóquei com a seleção canadense em 2004.

O primeiro brasileiro da história da NHL foi Mike Greenlay, nascido em Vitória, no Espírito Santo. Ele teve passagem pelo Edmonton Oilers entre 1989 e 1996, mas atuou na maioria da carreira em ligas menores.

Regehr, em seu primeiro treino com os Kings: campeão da Stanley Cup

E os times?
São 30, divididos nas quatro conferências explicadas acima. Sete do Canadá, 23 dos Estados Unidos. Há times de hóquei espalhados por todos os cantos do país, independentemente da temperatura local. Pois é, na Flórida, são dois: o Tampa Bay Lightning e o Florida Panthers (da cidade de Sunrise, na região metropolitana de Miami). Na Califórnia, mais três: San Jose Sharks, Los Angeles Kings e Anaheim Ducks.

Embora os times canadenses sejam minoria, os dois maiores campeões são de lá. O Montreal Canadiens (os Habs – já é bom ir se acostumando ao apelido) conquistou 23 vezes a Stanley Cup, tendo disputado 34 vezes a final. Abaixo vem o Toronto Maple Leafs, com 13, em 21 finais disputadas. O time de maior sucesso dos EUA é o Detroit Red Wings, com 11 títulos em 24 aparições.

O Phoenix Coyotes anunciou a mudança de nome para Arizona Coyotes

As rivalidades também são uma marca da NHL. A maior delas é justamente entre os dois campeões. O Montreal Canadiens é o símbolo da região do Canadá colonizada pelos franceses, enquanto o Maple Leafs representa a parte anglo-saxã. Ou seja, além de tudo que envolve o jogo em si, há uma oposição que chega a ser cultural. Há diversas outras, como Detroit Red Wings x Colorado Avalanche, Los Angeles Kings x Anaheim Ducks, Pittsburgh Penguins x Philadelphia Flyers, New York Rangers x New Jersey Devils… Aos poucos abordaremos todas aqui.

Jogo entre Maple Leafs e Canadiens: rivalidade acirrada

A linguagem do hóquei
Assim como nos outros esportes Americanos, as regras da NHL mudam constantemente. Ajustes são feitos antes de toda temporada. Por ser um jogo de contato físico, há diversos tipos de penalidade. A partida é parada quando o árbitro ergue um dos braços, e somente com a equipe penalizada com o controle do puck. Se um gol for marcado pela equipe penalizada antes da interrupção, a punição será anulada. Abaixo, um glossário de termos recorrentes nas partidas.

Faceoff: é como se fosse a “bola ao alto” do basquete. O puck é recolocado em jogo em um dos quatro círculos dispostos no ringue, dois em cada campo.

Icing: ocorre quando o puck passa por três linhas do ringue (a do meio-campo, a do impedimento e a de fundo) sem ser tocado pelo time responsável pela jogada. A única maneira da equipe não ser penalizada é se estiver em desvantagem numérica. A marcação do icing gera um faceoff na defesa do time punido.

Minor Penalty: penalidade na qual o jogador fica dois minutos fora do ringue. Ele só retorna antes desse período se a outra equipe marcar um gol. Se um de cada equipe for punido ao mesmo tempo, ambos só voltam ao fim dos dois minutos.

Major Penalty: aplicada em faltas mais violentas. Independentemente de quantos gols o time beneficiado marque, o jogador só voltará ao fim do período de 5 minutos. Se um de cada equipe for punido ao mesmo tempo, ambos sairão e serão substituídos por outros jogadores pelo tempo estabelecido. É a penalidade aplicada em brigas.

Double Minor: são dois minor penaltys consecutivos, o que tira o jogador da partida por quatro minutos. Se o time beneficiado marcar um gol nos primeiros dois minutos, a penalidade expira, mas o atleta cumprirá a segunda penalidade. Uma curiosidade: se houver sangramento em qualquer parte do corpo do atleta que sofreu a interferência será aplicado este tipo de punição.

Misconduct Penalty: nesse caso, o jogador penalizado ficará 10 minutos fora do gelo. Ele poderá ser substituído por outro e ficará fora até uma parada do jogo, ao menos. Diversas ações caracterizam a má conduta, como tentar continuar uma briga ao fim dela, quebrar o taco deliberadamente, reagir com violência a uma decisão dos árbitros, provocar um adversário, sair do banco de reservas para falar com o árbitro, tentar distrair o árbitro ao cobrar um pênalti, entre outros fatores.

Holding: qualquer ação de um jogador que retarda o progresso de um jogador adversário se ele está ou não em posse do disco.

Boarding: quando um jogador empurra o adversário, fazendo-o se chocar violentamente com as placas que delimitam o ringue. A gravidade fica a critério do árbitro.

Charging: imprimir carga sobre o adversário pulando ou deslizando sobre ele, seja em direção às placas, ao gol ou em uma área livre do gelo

Clipping: acertar o adversário, independentemente da direção, abaixo dos joelhos

Checking from behind: atingir um adversário por trás, sem que ele tenha chance de se defender

Check to the head: acertar o adversário na cabeça quando ele não tiver possibilidade de defesa. É uma das infrações mais polêmicas, por conta do risco

Elbowing: dar uma cotovelada em jogador adversário

Kicking: chutar um adversário com os patins (lembrando que eles têm afiadas lâminas embaixo)

Kneeing: dar uma joelhada em jogador adversário

Head-butting: tentar/acertar uma cabeçada em jogador adversário

Cross-checking: acertar o adversário com o taco deliberadamente, segurando-o com as duas mãos, sem que ele esteja tocando o gelo

High-sticking: acertar o adversário com o taco acima dos ombros

Slashing: erguer o taco em direção ao adversário, havendo ou não contato

Spearing: direcionar a lâmina dos patins ao adversário, havendo ou não contato

Slew-footing: basicamente, dar um “carrinho” ou passar uma rasteira no adversário

Roughing: troca de socos quando o jogo é paralisado pelo árbitro

Hooking: usar o stick (taco) de maneira a evitar o progresso de um adversário

Tripping: usar o stick, o joelho, o pé, o braço ou a mão para fazer com que o adversário tropece

Interference: evitar o progresso de um adversário que não está com o puck, esteja ou não participando da jogada em questão

Delaying of game: atrasar o jogo de alguma maneira

Diving: “cavar” uma falta se jogando no gelo. Essa regra vem ganhando atenção cada vez maior da NHL, e as punições nessa temporada devem ser mais severas

Equipment: não usar os equipamentos de proteção obrigatórios

Montreal Canadiens @ Toronto Maple Leafs
Philadelphia Flyers @ Boston Bruins
Vancouver Canucks @ Calgary Flames
San Jose Sharks @ Los Angeles Kings

Columbus Blue Jackets @ Buffalo Sabres
New Jersey Devils @ Philadelphia Flyers
Anaheim Ducks @ Pittsburgh Penguins
Montreal Canadiens @ Washington Capitals
Boston Bruins @ Detroit Red Wings
Florida Panthers @ Tampa Bay Lightning
New York Rangers @ St. Louis Blues
Ottawa Senators @ Nashville Predators
Chicago Blackhawks @ Dallas Stars
Colorado Avalanche @ Minnesota Wild
Calgary Flames @ Edmonton Oilers
Winnipeg Jets @ Arizona Coyotes

Youtubers portugueses promovem sites ilegais de apostas. E isso é crime

Youtubers portugueses promovem sites ilegais de apostas. E isso é crime

Punível até 5 anos de prisão, a prática é crime e um incentivo “perigoso” ao jogo, principalmente quando visto por crianças, dizem especialistas. Youtube bloqueou alguns vídeos, após contacto da Renascença, e um dos sites deixou de estar disponível em Portugal esta noite. “Blaze” e “Drakemall” são sites ilegais de apostas, promovidos, nos últimos meses, por alguns dos youtubers mais influentes em Portugal, como Sirkazzio, Wuant, Windoh e Tiagovski.

Punível até 5 anos de prisão, a prática é crime e um incentivo “perigoso” ao jogo, principalmente quando visto por crianças, dizem especialistas. Youtube bloqueou alguns vídeos, após contacto da Renascença, e um dos sites deixou de estar disponível em Portugal esta noite. “Blaze” e “Drakemall” são sites ilegais de apostas, promovidos, nos últimos meses, por alguns dos youtubers mais influentes em Portugal, como Sirkazzio, Wuant, Windoh e Tiagovski.
Inês Rocha

Mais de uma dezena de youtubers portugueses– incluindo os mais populares em Portugal, como Sirkazzio (5,1 milhões de subscritores), Wuant (3,6 milhões) e Windoh (1,68 milhões) - têm promovido, nos últimos meses, sites de apostas “online” sem licença a operar em Portugal, como “Blaze” ou “Drakemall”.

São vídeos longos, em que explicam como funcionam os sites, como se joga e quais os meios de pagamento aceites. Em alguns deles, assumem que o vídeo foi patrocinado pelos próprios sites - como um dos vídeos de Wuant, em que revela que o “pagamento deste site já dá para um mês inteiro de Youtube”; noutros, dizem apenas que lhes apetece jogar - como neste vídeo publicado por Windoh.

A lista de youtubers a fazer este tipo de publicidade é longa. Além de Sirkazzio, Wuant e Windoh, também Tiagovski, Bruno Mota, Miguel Alves, Jekas, Ovelha Pi, Diogo Costa, Ferp, Nuno Moura, Cardoso e Cabana André fizeram vídeos sobre sites de jogo ilegal.

Questionado pela Renascença acerca da legalidade dos vídeos, o Youtube decidiu, na sequência deste contacto, bloquear grande parte deles.

“Exigimos aos criadores do YouTube que garantam que o seu conteúdo cumpra as leis locais e as nossas Diretrizes da Comunidade do YouTube. Inclui o facto dos criadores anunciarem que se trata de 'product placement' ou conteúdo pago nos seus vídeos de forma a que os espectadores sejam informados adequadamente. Se algum vídeo violar estas políticas, agimos rapidamente e em conformidade”, afirmou um porta-voz da Google, empresa proprietária do Youtube, em resposta à Renascença.

Os youtubers foram notificados do bloqueio, como notou Wuant, esta segunda-feira, no Twitter.

O YouTube removeu o meu último vídeo porque o patrocinador quebra os termos de serviço.

Gostava de voltar aos tempos em que nada disto importava, sem nos preocupar com 1001 merdas para postar um vídeo. Vão haver menos vídeos temporariamente, obrigado pelo apoio pessoal.

“Talvez seja altura de me focar noutras coisas, não sei. De qualquer forma não me vou embora, preciso só de pensar”, escreveu o youtuber, também no Twitter.

Tiagovski partilhou o tweet de Wuant, com o comentário “Youtube a mandar os criadores embora pouco a pouco”.

Um dos sites mais publicitados, “Blaze”, deixou esta noite de estar disponível em Portugal

Segundo o Serviço de Regulação e inspeção do Jogo (SRIJ), a entidade que opera sob esta marca foi notificada para cessar a sua atividade “nos termos da lei e em tempo oportuno, antes de ser questionado pela Renascença”.

O site funcionava com uma licença atribuída em Curaçao, uma ilha situada nas antigas Antilhas Holandesas, nas Caraíbas. No entanto, esta licença não é válida em Portugal – o que significa que, em território nacional, não podia funcionar.

O mesmo acontece com “Drakemall”, um site de “caixas mistério” com licença no mesmo país. Este tipo de jogo, no entanto, está numa área cinzenta da legislação do jogo, não sendo claro se é considerado um “jogo de azar”, e continua a funcionar.

Vídeos violam lei e política do Youtube

Ao promover estes sites, os youtubers estão a cometer dois ilícitos: um relacionado com o próprio jogo e outro no âmbito da publicidade, como explica à Renascença Filipe Mayer, advogado da da CCA Law Firm, especialista nas áreas do jogo e da publicidade.

“Nos termos do regime do jogo online, a exploração e a promoção de jogos online não autorizados, por qualquer meio, constitui crime”, lembra o advogado. O crime, segundo o Regime Jurídico dos Jogos e Apostas Online, é punível com uma pena até cinco anos de prisão ou pena de multa até 500 dias.

Já do lado da publicidade, ao promover um jogo que não está licenciado em Portugal, os youtubers estão a incorrer numa contraordenação.

“Essa contraordenação pode ser aplicada à entidade exploradora, neste caso o anunciante, mas também a qualquer outro interveniente na mensagem publicitária, neste caso o próprio Youtuber e a rede social em causa”, explica Filipe Mayer.

As coimas para quem não cumpre as regras da publicidade vão de 1.750 a 3.750 euros, no caso de pessoas singulares, e de 3.500 a 45 mil euros, se forem pessoas coletivas.

O caso já foi denunciado ao regulador do setor do jogo, o Serviço de Regulação e inspeção do Jogo (SRIJ), pela Associação Portuguesa de Apostas e Jogos Online, associação que representa os operadores legais.

“Já fizemos algumas queixas relacionadas com conteúdos de promoção a jogo ilegal, no Youtube, no Instagram, e noutros meios que não são digitais”, diz à Renascença o presidente da associação, Gabino Oliveira. “O regulador tem estado a par, temos trabalhado junto do SRIJ para dar visibilidade a estas práticas e o regulador tem estado a atuar dentro dos limites que a lei lhe confere”.

À Renascença, numa resposta escrita, o regulador garante que está a atuar. Apesar de não confirmar se já atuou neste caso concreto, a instituição afirma que, quando recebe uma denúncia, desencadeia diligências “sobre os proprietários dos sítios e plataformas da Internet”.

"Sempre que o SRIJ deteta ou nos chega ao conhecimento que estão a ser realizadas ações publicitárias a sítios e operadores ilegais, desencadeamos diligências junto dos proprietários dos suportes utilizados com vista à cessação imediata da difusão da publicidade. Algumas dessas diligências incidiram sobre os proprietários das redes sociais, foco de maior preocupação pelos riscos de exposição dos consumidores de maior vulnerabilidade, como é o caso dos menores”, escreve o SRIJ.

A Renascença pediu entrevistas ao regulador e também ao Ministério da Economia e Transição Digital, que tutela o setor. No entanto, o SRIJ aceitou apenas responder por escrito e os pedidos de entrevista não foram aceites, até à hora de fecho desta reportagem".

Pediu também entrevistas às agências associadas a estes Youtubers, como a BeInfluence, a Fullsix e a Luvin. A BeInfluence e a Fullsix demarcaram-se deste tipo de conteúdos, remetendo qualquer questão para os youtubers em questão. A Luvin, que representa Windoh, não respondeu ao pedido até à data de publicação deste artigo.

Todos os outros pedidos de entrevista da Renascença aos youtubers, como Wuant, Tiagovski, Windoh, Sirkazzio, Bruno Mota, Miguel Alves e Jekas, foram recusados ou ficaram sem resposta.

Dizer que é para maiores de 18 não chega

Todos os youtubers que promovem estes sites fazem questão de frisar que o jogo não é indicado para menores de 18. Mas será que isso chega?

João Alfredo Afonso, advogado da Morais Leitão, Galvão Teles, Soares da Silva & Associados (MLGTS), explica que não. Além de a prática continuar a ser ilegal em Portugal, independentemente da idade de quem joga, o advogado lembra que os youtubers não podem ignorar que a sua mensagem vai chegar a uma grande percentagem de menores.

Para este advogado, especialista na área da regulação do jogo, fazer este anúncio sabendo que o seu público-alvo é constituído em grande parte por menores “torna a sua ação particularmente sancionável”.

“Porque dentro de um determinado crime, há vários níveis de culpa e gravidade. Um crime desta natureza, que é de promoção de jogo, ainda por cima de jogo ilegal, junto de menores, é particularmente grave. Só a promoção do jogo ilegal é grave, mas a promoção de jogo ilegal junto a menores é particularmente grave”, considera João Alfredo Afonso.

O advogado explica ainda que, ainda que o youtuber alegue que não sabia ou não tinha intenção de fazer os menores jogar, “a lei diz que a negligência também é punível”.

“Diria que neste caso é uma negligência bastante grosseira, porque ele não pode ignorar que um menor que olhe para o vídeo dele, onde faz campanha ou publicidade ou benefícios de jogar em determinado site, vai querer jogar”. Só porque ele diz "se não tiveres 18 anos, não cliques", isso não vai impedir que o menor aceda ao site. “É aliás um atrativo para que clique”, lembra o advogado.

A preocupação destes sites em não dirigir a publicidade a menores de 18 anos não é tão grande na hora de contratar. Exemplo disso é a youtuber Jéssica Machado, ou “Jekas”, como é conhecida no Youtube. A Renascença confirmou que esta youtuber, que faz vídeos de promoção ao “Blaze”, ainda não cumpriu 18 anos.

Uma informação que é notada por alguns dos seus subscritores, que escrevem nos comentários: “Quando fazes um vídeo de “+18 anos” mas não tens 18 anos” e “Jéssica tu tens 17 anos e estás a dizer para as pessoas com menos de 18 anos não entrarem no site!”

A Renascença pediu uma entrevista à Youtuber, que recusou, alegando falta de tempo.

Sites estão em português e têm apoio personalizado em língua portuguesa

Os dois sites mais publicitados pelos youtubers, “Blaze” e “Drakemall”, apesar de estarem registados em moradas estrangeiras - Malta e Irlanda, respetivamente - existiam, até esta segunda-feira, em língua portuguesa e têm apostado em associar-se a youtubers portugueses e espanhóis, mas também brasileiros.

Antes de ser bloqueado, uma visita ao site “Blaze” permitia perceber, pelo “chat” que exibe com mensagens de jogadores, que grande parte dos apostadores são portugueses. Também no “apoio ao cliente”, do outro lado, as perguntas dos utilizadores são respondidas em português correto.

Ainda assim, ao tratar-se de publicidade a empresas estrangeiras numa plataforma estrangeira, poderia considerar-se que a lei portuguesa não se aplica neste caso?

O advogado Filipe Mayer garante que não. “Os youtubers estão em Portugal, a fazer publicidade falada em língua portuguesa, dirigida ao público português. Não há muitas dúvidas em termos de aplicação da lei penal portuguesa a qualquer prática que o ilícito, a verificar-se, é praticado em Portugal”, afirma o especialista.

“Não é por a plataforma em si não ser sediada em Portugal que deixa de ser Portugal, há uma clara identificação do público, a língua é portuguesa, dirigida aos portugueses”.

A Renascença contactou o apoio dos dois sites citados, pedindo uma entrevista. Não recebeu resposta do site Blaze e, do “Drakemall”, recebeu uma curta resposta dizendo que não se trata de um jogo de azar mas de “loot boxes” (caixas mistério), que aquela empresa não considera enquadrar-se na definição de “gambling”.

Uma “violação flagrante dos termos e condições do YouTube”

A política do Youtube proíbe a publicação de conteúdo que tenha como objetivo vender diretamente determinados bens ilegais ou regulamentados, incluindo “casinos de jogos de azar online”. A proibição estende-se também a conteúdos “que incluam links para sites que vendem os itens em questão”.

Para Tito de Morais, responsável pelo projeto “Miúdos Seguros na Net”, estes vídeos são “uma violação flagrante dos termos e condições do YouTube”.

No entanto, Tito admite que esta “é uma área um bocado cinzenta, já que com alguma facilidade, mesmo que sejam suspensos, os vídeos facilmente voltarão a ficar disponíveis publicamente”.

“Os youtubers podem alegar que não estão a vender diretamente. Mas na prática estão a incitar a utilização de uma plataforma de apostas que é ilegal em Portugal”. Mesmo que retirem os links da descrição, “dizem o endereço no próprio vídeo e mostram a plataforma. Qualquer criança consegue ver qual é o site”, explica.

Foi isso mesmo que aconteceu recentemente, numa polémica muito semelhante, nos Estados Unidos.

Em janeiro de 2019, os youtubers norte-americanos Jake Paul e Ricegum foram acusados de promover sites de jogos de azar a públicos infantis. Em causa o site “Mystery Brand”, muito semelhante ao “Drakemall”, que envolve a compra de “caixas mistério” digitais, a diferentes preços, numa lógica inspirada no popular jogo “Counter-Strike: Global Offensive”. Ao comprar estas caixas, o utilizador não sabe o que lhe irá sair em sorte: de uma caixa que custa 20 euros, por exemplo, podem sair artigos menos valiosos, como porta-chaves, ou itens caros como telemóveis e computadores.

Um artigo do “Daily Beast” denunciou a situação, mas o Youtube, neste caso, não interferiu, atribuindo a responsabilidade pelo conteúdo aos próprios youtubers. Neste caso, a plataforma não considerou jogos de caixas-mistério como “gambling”, ou seja, jogos de azar, pelo que não bloqueou os vídeos.

Em 2018, Portugal assinou uma declaração conjunta sobre “gambling e loot boxes” em videojogos, que manifestava preocupação sobre a linha ténue que existe, atualmente, entre “gaming” e “gambling”, devido aos jogos que utilizam esta estratégia de venda de caixas mistério com “skins” e extras para ganhar dinheiro.

No entanto, não é claro na legislação portuguesa se as "loot boxes" são consideradas jogos de azar pelo regulador. A Renascença questionou o SRIJ, que até à data de fecho desta publicação, não deu resposta a esta questão.

Já sobre o site “Blaze”, que se autodescreve como uma plataforma de jogos de azar, não há dúvidas de que quebra as regras do Youtube. Tendo em conta o tipo de jogo que oferece, o “crash game”, este site nunca poderia ser legalizado em Portugal, como explica o advogado Filipe Mayer.

“Nos termos da lei portuguesa, os tipos de jogo online que podem ser promovidos estão tipificados na lei, estão descritos os tipos de jogo que são admissíveis, por exemplo o ‘black jack’, a roleta, as ‘slot machines’, o ‘poker’, o bacará. são tipos de jogo fechado”, diz este especialista da CCA Law.

Um incentivo “perigoso” ao jogo

O psicólogo Pedro Hubert, coordenador do Instituto de Apoio ao Jogador, diz ter ficado “indignado” ao ver os vídeos, a convite da Renascença.

“Este tipo de publicidade é claramente um incentivo ao jogo. Só falta dizer ‘joguem’, ‘continuem a jogar’”, diz.

O psicólogo considera mesmo que aqueles vídeos são feitos “para menores”, o que pode ser particularmente perigoso em jovens com predisposição para o jogo.

“Pode jogar-se muito dinheiro. A resposta é imediata, os prémios são significativos. Do ponto de vista clínico, é muito mau para quem tenha uma predisposição para o jogo. E aqueles avisos que eles fazem são um bocado ridículos”, atira o psicólogo.

Pedro Hubert explica que o “Crash”, um dos jogos que o “Blaze” oferece, é particularmente preocupante.

“Aquilo que faz com que um tipo de jogo seja mais aditivo é a frequência de evento, a rapidez da resposta e o tipo de prémio”, explica o especialista.

“Um tipo de jogo é mais perigoso quanto mais vezes eu possa jogar num minuto, quanto mais depressa chega a resposta entre a aposta e o resultado e quanto maior é o prémio”.

No caso do “Crash”, em que o jogador pode ir multiplicando o seu dinheiro ou perder tudo em poucos segundos, “é pior do que uma slot machine, porque pode jogar-se 10, 15 vezes num minuto”, lembra o psicólogo.

E porque é que estes sites devem ser vedados a menores de idade? Pedro Hubert explica que nem os jovens de 18 anos poderão estar preparados para lidar com este tipo de jogo.

“Há uma função mental superior que é o controlo dos impulsos. Essa função só está definitivamente formatada no nosso cérebro lá para os 21, 22 anos”, diz o especialista. “Um adolescente ou jovem adulto ainda tem muita dificuldade em controlar os impulsos”.

Crianças veem os vídeos sozinhas, sem um adulto a desmontar a mensagem

O Youtube não disponibiliza os dados demográficos destes canais, pelo que não é possível dizer, com certeza, qual a média de idades do público destes youtubers. No entanto, é sabido que há muitos menores a acompanhar estas personalidades, como se percebe pelas caixas de comentários dos canais.

Ana Jorge, professora e investigadora da Universidade Católica na área da comunicação, que tem estudado o fenómeno dos “influencers” no Youtube, considera que o público mais jovem é “mais suscetível, tem menos discernimento para perceber estes mecanismos das apostas, o que está em jogo”.

Quanto à mensagem que estes vídeos transmitem, a investigadora questiona a “imagem que se passa em relação à dificuldade de ganhar dinheiro ou esta aparente facilidade de ganhar dinheiro através do ‘online’”.

“Hoje em dia, quando há tanta dificuldade na economia, nos empregos tradicionais, em as pessoas ganharem a sua vida, estas mensagens não deixam de ser aliciantes e tanto mais perigosas quanto maior a necessidade ou a vulnerabilidade em que os jovens vivam”, diz a investigadora.

“Não é aqui contextualizado como é que eles angariam o dinheiro com que começam no site e, apesar de serem feitos alertas sobre o facto de não ser um site para menores de 18 anos, não deixa de se passar uma imagem de que este dinheiro parece completamente virtual, mas por outro lado pode escalar, pode crescer muito, de uma maneira muito fácil e atrativa, lúdica, para depois ter um retorno na vida do dia-a-dia”, analisa a professora.

Ana Jorge lembra que “estes conteúdos estão disseminados, são recebidos muitas vezes de uma forma individual pelas crianças e jovens”, sem qualquer contextualização de um adulto. “Este não é um modelo de estar em família a ver televisão e ver alguma mensagem deste tipo, que os pais podem desmontar”.

Por outro lado, vários fatores levam os mais jovens a aceder a estes conteúdos. Ana Jorge diz que vários estudos internacionais mostram que há uma combinação entre a própria plataforma, que faz recomendações de outros youtubers com base na visualização que já foi feita e o lado social dos jovens - “há muita pressão social para acompanhar, porque os amigos também veem, falam sobre o assunto”.

O que é que os pais podem fazer? Não proibir, acompanhar

Os especialistas são unânimes quanto ao papel dos pais na presença dos filhos “online”: a proibição não é solução.

“O melhor modelo será sempre tentar acompanhar, não restringir porque sim”, considera Ana Jorge. Além do efeito perverso que tem a proibição, ela “é fácil de contornar, as crianças percebem isso”, lembra a investigadora.

O psicólogo Pedro Hubert é da mesma opinião: a proibição total “não é possível nem vantajosa”.

“Dentro do respeito, que é um modelo parental democrático, não é autoritário nem negligente. os pais não se podem desresponsabilizar de exercer autoridade e liderança”, defende o especialista em adição a jogo.

“Os pais têm de ser mais interventivos, perceber o que os filhos estão a fazer, quando, como, ter algum grau de controlo, sem ser intrusivo mas têm de saber o que se passa”, diz Pedro Hubert.

Também Ana Jorge defende um acompanhamento não intrusivo, com os pais a procurarem ver os conteúdos com os filhos ou a pedirem que lhes contem o que andam a ver.

“É em famílias que não têm capacidade de dar acompanhamento que se encontram as maiores vítimas deste tipo de comunicação”, lembra a investigadora.

Jogo legal vs ilegal: problema está nos impostos?

Mais de metade dos jogadores apostam em sites ilegais

Mais de metade dos jogadores em Portugal Continental (56%) apostam através de sites de jogo online não licenciados. Desses, apenas 6% aposta exclusivamente através de sites ilegais. Em sentido oposto, 44% dos jogadores apostam em exclusivo em sites licenciados, ou seja, dentro da lei.

São dados de um estudo encomendado pela Associação Portuguesa de Apostas e Jogos Online (APAJO) à Aximage, divulgado em outubro de 2019. O estudo incluiu 609 entrevistas efetivas, através das quais foi possível saber que - do universo de jogadores registados - cerca de 94% já jogaram a dinheiro em 2019.

Um outro estudo, divulgado em 2017 pela Remote Gambling Association (RGA),associação que representa 36 operadores de jogo online a nível europeu, dava conta de números menos positivos para o setor. À data, quase sete em cada dez dos apostadores online em Portugal (68%) tentavam a sorte em operadores não licenciados, de forma exclusiva (38%) ou em conjugação com operadores legais (30%).

Mas os números flutuam muito de inquérito para inquérito. Um estudo encomendado pelo Turismo de Portugal à Nova IMS em 2019, em parceria com a Qdata, estima, segundo o Dinheiro Vivo, que 75% dos jogadores apostam no mercado não regulado. A Renascença pediu ao Serviço de Regulação e Inspeção do Jogo (SRIJ) acesso a este estudo, mas este foi recusado, uma vez que se trata de um estudo “reservado”.

Segundo dados do SRIJ, desde 2016 até agosto de 2019, registaram-se nos operadores legais mais de 1,4 milhões de jogadores. No entanto, este número diz respeito aos registos nos vários operadores - o que significa que o número exato de consumidores/apostadores únicos registados não é conhecido.

Ainda assim, há estimativas. Segundo um outro estudo, divulgado em junho deste ano, encomendado pela APAJO à consultora Winning Scientific Management, existirão em Portugal entre 400 mil e 600 mil apostadores únicos online. Ou seja, entre 4,6% e 6,9% da população adulta no país.

Uma dezena de operadores legais, centenas ilegais

Atualmente, 11 entidades estão autorizadas a exercer a atividade de exploração de jogos e apostas online em Portugal, com um total de 18 licenças atribuídas.

Mas qual o universo de operadores ilegais a exercer em Portugal? É difícil ter números concretos, tendo em conta o dinamismo da criação destes sites “online”.

O estudo divulgado em 2017 pela Remote Gambling Association (RGA) dava conta da existência de 417 plataformas “online” em língua portuguesa, sem licença, das quais 368 aceitavam euros.

Além destas, 297 plataformas aceitavam jogadores de qualquer localização no mundo, com pagamento em euros.

408 operadores notificados desde 2015

Segundo dados do Serviço de Regulação e Inspeção de Jogos, desde a entrada em vigor do RJO, em 29 de junho de 2015, e até 30 de junho de 2019, foram notificados para encerrarem a sua atividade em Portugal 408 operadores ilegais.

Procedeu-se ainda à notificação aos fornecedores de acesso à internet (ISP’s, na sigla inglesa) para o bloqueio de 324 sítios na Internet de operadores ilegais que, não obstante terem sido notificados pelo SRIJ para cessarem a atividade, continuaram a disponibilizar em Portugal jogos e apostas online.

No total, foram efetuadas 13 participações junto do Ministério Público para efeitos de instauração dos correspondentes processos-crime.

A PGR confirma estar a investigar dois destes casos relacionados com jogo ilegal online no DIAP de Lisboa. Cinco casos foram arquivados.

Estado encaixa 42% das receitas dos operadores

Questionado sobre o porquê de o jogo ilegal continuar a estar tão presente no mercado português, três anos depois da sua regulação, o advogado João Alfredo Afonso não tem dúvidas: a razão está no dinheiro.

“Esses sites, apesar de não darem as mesmas garantias, oferecem prémios melhores. Lá fora não pagam os impostos que são pagos aqui dentro”, afirma o especialista.

“A solução não passa por não se pagar impostos mas por se criar um ambiente interno para que a diferença entre os prémios que se podem pagar não seja tão grande que desincentive a jogar em mercados legais”, defende o advogado.

Desde que a primeira licença para a exploração de apostas desportivas à cota online foi emitida, em 25 de maio de 2016, até ao segundo trimestre de 2019, os operadores legais registaram 427 milhões de euros de receitas brutas (montante das apostas depois de deduzidos os prémios pagos). Desses, o Estado já encaixou mais 183,1 milhões de euros em Imposto Especial de Jogo Online (IEJO), ou seja, 42% das receitas dos operadores.

Isto acontece porque o imposto sobre as apostas desportivas, 8 a 16%, é atualmente calculado sobre o volume das apostas e não sobre a receita dos operadores. Já no caso dos jogos de azar, que incluem jogos de casino, como as roletas e o poker, o imposto situa-se entre os 15 e os 30% da receita bruta.

O presidente da APAJO diz perceber que “o Estado não está num momento em que pode perder receitas”. No entanto, diz ser possível obter um equilíbrio entre uma redução do imposto e o crescimento do mercado.

“A APAJO continua a defender que o imposto de jogo nas apostas desportivas está muito elevado e deve ser reduzido, tendo em conta os interesses dos vários intervenientes”, diz à Renascença Gabino Oliveira,.

“Estamos a trabalhar com as autoridades para conseguir uma redução do imposto de uma forma sustentável para todos”, revela o líder da associação dos operadores de jogo.

O que é preciso para ter um site de apostas legal em Portugal?

Atualmente, há sete operadores legais em Portugal, com 11 licenças de jogo (quatro das quais são renovações): Betclic, Bet, Estoril Sol Digital, REEL Europe Limited, Casino Portugal, Casino Solverde, A Nossa Aposta.

O SRIJ estabelece, no seu site, as seguintes regras para atribuir uma licença:

  • Ter a situação contributiva e tributária regularizada em Portugal;
  • Possuir idoneidade, capacidade técnica, económica e financeira;
  • Apresentar um projeto com as melhores práticas em termos de arquitetura de software e tecnologia nos termos da lei.

No entanto, são muitas mais as regras impostas aos operadores para ter a sua situação regularizada em Portugal, tais como:

  • Exigir o nome completo e dados do jogador, data de nascimento, nacionalidade, profissão, morada, endereço de correio eletrónico, número de identificação civil ou do passaporte, número de identificação fiscal e dados da conta bancária (NIB, IBAN ou SWIFT) onde serão debitados os pagamentos e creditados os prémios. O registo de jogador só se torna efetivo depois de verificada a respetiva identidade e confirmada a inexistência de proibição de jogar;
  • Ter, na conta bancária da empresa, um saldo mínimo que permita fazer face ao pagamento, a qualquer momento, do saldo global das contas de jogador e, por outro lado, do imposto que é devido nesta atividade;
  • Transferir o dinheiro dos prémios no prazo máximo de 5 dias úteis;
  • Estar capacitados de sistemas informáticos que sejam capazes de evitar esquemas de fraude ou branqueamento de capitais;
  • Sites devem incluir mecanismo de auto exclusão, que permite aos jogadores pedirem para serem barrados, com o objetivo de prevenir o jogo excessivo e evitar comportamentos aditivos, e mecanismos para fixar limites de apostas, que podem ser diários/semanais/mensais.
  • Em caso algum uma entidade exploradora pode dar dinheiro a um jogador para jogar
  • Software certificado por uma entidade acreditada, que atesta que há um gerador de números aleatórios idóneo
  • O software é sujeito a auditorias trimestrais

O processo de licenciamento é demorado. Segundo o advogado João Alfredo Alfonso, entre a apresentação de toda documentação ao SRIJ e uma decisão final, podem passar entre seis meses - “talvez a licença mais rápida que já se conseguiu em Portugal” - e mais de dois anos.

O advogado especialista na área, Filipe Mayer, lembra que, ao contrário dos operadores com licença em Portugal, os operadores não licenciados “não oferecem nenhum tipo de garantia de que o negócio vá ser realizado conforme se encontra publicitado”.

“Nada me garante a mim, jogador, que na probabilidade de sair uma carta seja salvaguarda a verdade dos resultados”, diz o advogado.

Ainda assim, para os advogados, é quase impossível ao regulador fazer uma supervisão rápida e eficaz do setor. “A internet tem um dinamismo muito superior ao das entidades que supervisionam e tentam evitar esse acesso. Portanto, estão sempre atrás do prejuízo”, diz João Afonso.

Artigo atualizado a 18 de novembro, às 15h com dados da Procuradoria Geral da República e a resposta do Serviço de Regulação e Inspeção de Jogos sobre o encerramento do Blaze

O que acontece com apostas de jogos adiados ou cancelados?

O que acontece com apostas de jogos adiados ou cancelados?

Veja as regras e procedimentos que o Betsul adota em casos como os atuais

O surto de Covid-19 tem afetado de maneira sem precedentes o mundo dos esportes. Para tentar conter a rápida disseminação do vírus, não restou outra opção às federações, organizações e entidades que cuidam de várias competições de modalidades diferentes a não ser adotarem posturas extremistas para encarar a situação. A fim de controlar a epidemia, eventos estão sendo cancelados e adiados no planeta inteiro.

Para os apostadores, fica uma dúvida no ar: o que acontece com a minha aposta se uma partida ou campeonato for adiado ou cancelado? Caso isso aconteça, não é preciso se preocupar. Quem aposta com o Betsul tem todo o respaldo da empresa nestas situações para que não seja prejudicado financeiramente. Para entender melhor como são as regras e procedimentos do melhor site de apostas da América do Sul, confira o artigo abaixo!

O que acontece se uma partida ou evento é adiado?

Se um evento esportivo é adiado antes de começar, o que representa os casos atuais que envolvem o surto de coronavírus, as apostas ainda são válidas para as situações em que aquele evento seja realizado em um período de 24 horas a partir do horário original.

Por exemplo, supondo que Real Madrid x Barcelona esteja marcado para um domingo ao meio-dia, e que o jogo seja adiado pelas autoridades espanholas por algum motivo. Caso este jogo seja iniciado até o meio-dia de segunda-feira, no dia seguinte, a aposta pode ser mantida com as mesmas condições nas quais o apostador realizou.

Se por acaso o evento for remarcado para acontecer em um período superior a 24 horas a partir do seu horário original, o dinheiro do apostador é devolvido de acordo com as regras de devolução para apostas simples e combinada (veja abaixo as diferenças de cada uma).

O que acontece se uma partida ou evento é cancelado?

Para os casos em que um jogo ou um evento esportivo é cancelado, as apostas serão devolvidas seguindo as mesmas regras de quando estes são adiados e remarcados para um período superior a 24 horas a partir do horário original em que deveria acontecer.

E se o evento for mantido, mas acontecer em um local diferente?

Recentemente, surgiu a ideia de que a partida entre Itália e Inglaterra pela Six Nations Rugby acontecesse na Irlanda. Desta maneira, o evento seria possível de ser realizado sem grande risco. No entanto, os responsáveis envolvidos nele decidiram que o melhor seria adiá-lo.

Supondo que o plano de mudar o palco do jogo se concretizasse, a aposta seria mantida sem qualquer alteração, permitindo que o apostador cancelasse, se quisesse, antes da partida começar, recebendo de volta integralmente o valor apostado.

Como funciona a devolução?

O Betsul devolve o dinheiro apostado pelo usuário de maneiras diferentes, levando em conta se aquela aposta é simples ou combinada.

Nos casos de apostas simples, quando um evento for adiado por mais de 24 horas ou for cancelado, o Betsul devolve todo o valor apostado pelo usuário. Para os eventos que forem adiados por menos de 24 horas, o apostador pode optar por encerrar a aposta antes do evento começar, também recebendo o valor integral apostado ou deixar a sua aposta nas mesmas condições do momento em que registrou o palpite.

Para as apostas combinadas, a devolução também é realizada, mas de forma diferente, pois nesta modalidade pelo menos dois eventos estão atrelados. Quando um evento for cancelado ou adiado por mais de 24 horas ou por um período menor e o usuário quiser cancelar o valor apostado será recalculado levando em conta o cenário do momento e o montante devido será depositado em sua conta.

Isso acontece pois é necessário avaliar se a aposta ainda pode ser vencida (caso não seja, a aposta é perdida). Se puder, o sistema também pondera qual evento foi cancelado/adiado, para devolver o valor na proporção correta.

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Trader revela suspeitas de apostas viciadas

O trader português vive em Manchester para jogar nas maiores casas de apostas. Em 2017, acompanhou o jogo de futebol entre o Feirense e o Rio Ave que está a ser investigado pelo Ministério Público. E não tem dúvidas: houve dinheiro a mais em probabilidades “completamente estúpidas”.

É habitual dizerem a Pedro Silva que ele é um sortudo. Afinal, desde que se tornou apostador profissional, em 2010, só houve um mês em que não ganhou dinheiro a tentar acertar em resultados, golos ou penáltis dos jogos de futebol. Mas ele garante que as apostas não têm nada de fortuito. "Estava tramado se dependesse da sorte ou do azar. Um jogo de futebol é uma coisa matemática, de análise estatística e de probabilidades."

Pedro Silva mudou-se em 2013 para Inglaterra (viaja a Portugal regularmente, para ver a mulher e os dois filhos), porque é lá que estão as grandes casas de apostas mundiais, como a Betfair, com 4 milhões de clientes registados. Faz milhares de apostas todos os dias, na sala onde tem nove ecrãs, sintonizados em jogos de vários campeonatos, do português e inglês ao egípcio e paraguaio. "Acompanho os jogos e as odds e vejo que dinheiro é investido", conta.

Foi por isso que a 6 de Fevereiro de 2017 percebeu logo que havia algo estranho no Feirense-Rio Ave da 20ª jornada da I Liga, devido ao dinheiro envolvido (o Placard e a Santa Casa suspenderam as apostas, pois houve apostadores chineses a tentarem investir 50 mil e 100 mil euros). Na semana passada, o Ministério Público confirmou que quatro jogadores do Rio Ave (o guarda-redes Cássio e os defesas Marcelo, Roderick e Nadjack) foram constituídos arguidos por suspeitas de match fixing – terão aceitado milhares de euros para ajudarem a sua equipa a perder.

Consegue perceber quando os jogos estão a ser manipulados?
Sim, isso acontece quando aparecem pessoas a oferecer prémios completamente díspares da probabilidade de aquela equipa ganhar.

E isso acontece com frequência?
É o pão nosso de cada dia por exemplo na Grécia, Roménia ou Bulgária. Vejamos: uma equipa tem 50% de probabilidades de ganhar e marca um golo. Está a vencer, mas o mercado diz que a probabilidade de ganhar passa a ser menor do que quando estava empatada. Aí não há dúvida de que esse jogo está comprado.

E em Portugal, quando é que começou a notar isso?
Na I Divisão, na época passada. Na II houve casos antes. Aliás, foram sinalizados pela FederBet, o organismo que faz a monitorização dos jogos nos vários mercados e alerta para movimentos suspeitos. Na II Liga, como há menos dinheiro envolvido, uma coisa dessas é mais evidente, porque se aparece lá alguém a pôr 10 mil euros, isso é logo suspeito.

Quanto é que se pode ganhar com uma aposta num jogo manipulado?
As apostas num jogo manipulado podem valer milhões de euros.

As entidades fiscalizadoras não detectam essas movimentações?
Detectam.

E em caso de suspeita, as apostas nesses jogos não são suspensas a nível internacional?
Não, porque as leis variam de país para país. Quem vai fechar uma casa de apostas em Singapura ou na Costa Rica por suspeitas de apostas num jogo da I Liga portuguesa?

Há sempre maneira de ganhar dinheiro com esses jogos viciados?
Claro. Cá só temos três casas regulamentadas [Placard, Betclic e Bet.pt], não temos acesso a todas as outras. A forma de isto ser perfeitamente transparente é fazer como se faz em Inglaterra e termos as casas todas regulamentadas e a funcionar cá, para que uma pessoa não tenha de ir a Inglaterra para perceber o que se está a passar com um jogo adulterado em Portugal.

Em relação ao Feirense-Rio Ave, que indícios notou de que pode realmente ter havido corrupção?
A quantidade de dinheiro absolutamente anormal que entrou a favor da vitória do Feirense, em probabilidades completamente estúpidas.

Tem ideia do dinheiro envolvido?
As apostas no jogo movimentaram 2 ou 3 milhões. E só na Betfair. Não estamos a falar das casas asiáticas.

Que pormenores do jogo é que achou estranhos?
O que chama mesmo mais a atenção é a quantidade de dinheiro envolvido a favor do Feirense, numa probabilidade irreal. Em relação ao jogo, o primeiro golo do Feirense é perfeitamente normal, mas o segundo já não parece tanto, os defesas parecem desistir do lance. É uma coisa que pode acontecer, mas com a quantidade de dinheiro a circular no mercado isso é estranho.

Houve outros casos de jogos suspeitos, na I Liga portuguesa?
Sim, na época passada há o Paços de Ferreira-Feirense. E porquê? Porque a probabilidade de o Feirense ganhar no campo do Paços nunca pode ser superior a 50%, e neste caso foi. Ao intervalo, com 0-0, e depois de uma primeira parte em que o Paços atacou muito mais, embora nas vrias oportunidades parecesse que os avançados estavam a passar a bola ao guarda-redes do Feirense, a odd era de 2, ou seja o Feirense continuava a ter 50% de hipóteses de ganhar.

Mas isso não podem ser apenas erros dos jogadores?
Claro, o que não é normal é que haja alguém a pôr centenas de milhares de euros a favor de algo que é completamente estúpido.

Diz que houve comportamentos suspeitos, como avançados isolados a falhar. Isso são indícios suficientes de que os jogadores do Paços de Ferreira receberam dinheiro para perder o jogo?
Não sei, mas havia alguém nos mercados a acreditar que o Feirense ia ganhar, e eram várias pessoas. E estavam dispostos a pôr dinheiro em probabilidades completamente es-túpidas de que isso ia acontecer, e só descansaram quando o Feirense mar- cou o golo, até lá insistiam que eles iam ganhar. Esses falhanços podiam acontecer naturalmente? Claro. Agora, não é comum isso acontecer com o dinheiro que estava a entrar.

Parece que vê os jogos de uma maneira como se um falhanço não pudesse acontecer. Mas o futebol não é feito de muitos falhanços?
No futebol, a maior parte das pessoas não tem essa percepção, mas porque é que não se fala de probabilidades reais de vitória ou derrota? Abstraímo-nos da parte matemática, mas o futebol tem muito a ver com probabilidades, a arte de ganhar dinheiro nos mercados de apostas passa por identificar esses padrões e ver quando é que eles se repetem. Com a quantidade de jogos que já acompanhei na minha vida, e que foram mais de 100 mil, é possível perceber quando há situações padronizadas e quando alguma coisa está por trás.

Há suspeitas de jogos em que os jogadores do Feirense poderiam ser pagos para perder?
Nos jogos que detectei movimentos estranhos era sempre para o Feirense ganhar. Só vejo o que acontece nos mercados, e o que acontecia é que aparecia demasiado dinheiro a favor das vitórias do Feirense, em probabilidades irreais. Era impossível não haver um conhecimento especial relativamente àquele jogo, havia de certeza alguém que sabia mais.

Nunca lhe apareceu um jogo suspeito envolvendo Benfica, FC Porto ou Sporting?
Não. Com situações assim tão claras, não. Agora, o que se começa a identificar são padrões relativamente ao comportamento do vídeo-árbitro (VAR). Quando o VAR vai definir se é golo ou fora-de-jogo, há imenso dinheiro a entrar. E as pessoas apostam a favor do clube grande, porque já se percebeu que o VAR foi criado para beneficiar os clubes grandes.

E em relação ao Rio Ave-Benfica da época 2015/16, agora investigado pelas autoridades?
Vi a notícia, mas não houve nada de anormal nesse jogo ao nível do mercado das apostas. A ter acontecido alguma coisa, nada teve a ver com apostas.

Em Março de 2017, na II Divisão B espanhola, quatro jogadores, um treinador e um dirigente do Eldense foram detidos por suspeitas de viciarem um resultado com o Barcelona B. O acordado era estarem a perder 8-0 ao intervalo e por mais de 11-0 no final, o que aconteceu. Tem conhecimento de outras combinações assim estranhas?
Sim. Estes casos que aconteceram na II Liga portuguesa, alguns tinham a ver com a quantidade de golos que eram marcados, passava por haver uma diferença de 5 golos, como aconteceu no Oriental-Oliveirense. E como são coisas pouco prováveis de acontecer, conseguem-se correspondências em odds muito altas.

No caso dos jogadores da II Divisão, terão aceitado valores entre 3.500 e 7.500 euros para perder. Isto não são quantias pequenas?
Sim, é muito pouco. E se aceitam isso é porque devem ter a percepção de que há poucas hipóteses de serem apanhados, porque ninguém se deixaria corromper por esse valor.

Além do Feirense-Rio Ave e Paços de Ferreira-Feirense, há outros jogos suspeitos na I Liga?
Há outros jogos do Feirense, mas não tão evidentes. Depois há aquelas situações que não são muito normais, como o penálti do Tonel no Sporting-Belenenses, em que fez um penálti estúpido. Especulou-se sobre isso, pois ele tinha jogado no Sporting, mas terá sido um lance fortuito, porque não aconteceu nada nos mercados ao nível de entrada de dinheiro.

O que acha de termos uma equipa em Portugal, o Feirense, cujo presidente da SAD é dono de uma casa de apostas na Nigéria?
É um factor de risco, é o primeiro passo para estas situações continuarem a acontecer. Devíamos era ter casas de apostas a patrocinar as camisolas dos clubes, a porem publicidade estática no estádios.

Em Inglaterra não há compra de resultados?
Não. Tanto na I como na II Liga, isso é impossível. Há tanta gente e tanto dinheiro lá que é impossível manipular aqueles mercados. Qual é a melhor forma de combatermos este fenómeno? É todos nós sermos um bocadinho polícias disto. Se tivermos todos os espectadores dos jogos da I Liga portuguesa inteirados do dinheiro que está a ser transacciona-do num jogo, é impossível alguém manipular e não ser descoberto.

Porque é que foi viver para Inglaterra?
Em Portugal, as maiores bolsas de apostas não estão regulamentadas. Se o fizer é uma contra-ordenação que acarreta uma multa de 2.500 euros.

Qual foi a maior aposta que fez? Cinco mil, 10 mil euros?
Não faço apostas de risco tão grande. Mas já apostei para ganhar 10 mil euros. No melhor mês que tive houve um jogo em que ganhei 14 mil euros, mas o meu risco normalmente não ultrapassa 1.000 euros. Em oito anos, tive uma aposta falhada de 2.900 euros, num jogo no Japão (o tipo marcou, começou a festejar, entretanto a imagem da televisão falhou, eu tinha metido dinheiro a favor do golo e não vi que afinal tinha sido anulado – nunca mais entrei em jogos do Japão). E tive outro caso, um Vit. Guimarães-Arouca. O Guimarães marcou um golo e eu estupidamente meti o dinheiro todo a favor do Arouca, baralhei-me com as camisolas e perdi 3 mil euros. Foi a única vez que cheguei ao fim do mês com prejuízo: 300 euros. No caso do Japão ainda consegui recuperar.

Aposta em vários jogos ao mesmo tempo?
Sim, por isso é preciso estar com muita atenção. É um desgaste mental muito grande, estou ali fechado 10 horas, ou um fim-de-semana inteiro, e chega ao fim e perco 100 euros. Resistir a isso é o grande desafio. Porque as pessoas pensam: que azar, estive quase a ganhar, mas a bola foi ao poste. Isto não é uma questão de azar. Por exemplo, qual é a probabilidade de um jogador marcar golo num penálti? Eu fiz uma análise e posso dizer que um jogador destro tem a possibilidade de falhar um em cada cinco penáltis e um esquerdino um em cada quatro. E porquê? Porque os destros têm tendência a chutar para o lado esquerdo do guarda-redes e os canhotos para o seu lado direito. E como a maior parte dos guarda-redes são destros, atiram- -se mais para o seu lado direito, têm mais facilidade em defender desse lado, têm mais força nesse braço, conseguem esticar-se mais e chegam mais vezes à bola. Isto não é sorte ou azar, é matemática.

Artigo publicado na edição 714, a 4 de Janeiro de 2018.

Entenda a Tecnologia usada nas odds das Apostas Esportivas Online

Já alguma vez se questionou sobre como as odds das apostas esportivas ao vivo conseguem variar ao segundo, de acordo com o que está acontecendo com o jogo? Ora, entenda que existe muita tecnologia para que essas variações sejam possíveis, permitindo que os apostadores brasileiros possam fazer suas apostas online, sempre com os mercados de apostas disponíveis.

Atualmente, a grande maioria dos sites de apostas legais no Brasil permitem que você não só possa fazer apostas pré-live, como também apostas ao vivo. Poderá estar assistindo à transmissão ao vivo dos jogos, ao mesmo tempo que está vendo a oscilação das odds.

Acontecimentos importantes em um jogo de futebol, como quando acontece um gol ou até uma expulsão, fazem com que essas mesmas odds tenham oscilações acentuadas. Mas quem na verdade consegue medir essas variações de odds? Será que essas odds representam constantemente a realidade do que está rolando nos jogos?

Tecnologias usadas para determinar as odds

Apesar de existir naturalmente muita intervenção humana, a realidade é que as casas de apostas esportivas no Brasil investem muito em tecnologias que automaticamente vão ter influência no valor das odds, que estarão disponíveis nos mercados de apostas ao vivo.

Assim, tecnologias como o Betradar ou até mesmo tecnologias que permitem analisar o valor das odds gerais das restantes casas de apostas, fazem com que haja uma natural oscilação das odds. É exatamente graças a essa tecnologia que faz com que a maioria dos sites de apostas apresentem odds que são bastante semelhantes umas às outras.

No entanto, e por se tratar de tecnologias automatizadas, em muitos casos essas odds não estão conseguindo prever a realidade dos acontecimentos e de uma leitura correta desse mesmo jogo. Logo, é precisamente nesses momentos que você deverá aproveitar para fazer apostas de valor, pois as odds estão desajustadas, face à realidade que você determinou, com sua leitura de jogo.

Influência humana na oscilação das odds

Se a parte tecnológica permite que as odds oscilem de forma natural e de acordo com fatores fixos como o tempo de jogo ou até um gol de uma das equipes, a componente da leitura do que está rolando já é bastante mais subjetiva. É precisamente nessas alturas que as casas de apostas necessitam de analistas profissionais, para corrigirem odds.

De fato, se um gol é algo objetivo, você determinar se uma equipe está jogando bem ou não já é uma interpretação subjetiva. É precisamente devido a essa subjetividade, que não vai em nada a favor das casas de apostas- principalmente quando existem bônus de apostas nos grandes jogos-, que esses operadores contratam apostadores e analistas profissionais.

A ideia é que esses profissionais estejam sempre muito atentos às odds, sobretudo durante o jogo, nos mercados de apostas ao vivo. Como esses profissionais já têm um vasto conhecimento sobre as equipes e de como os mercados funcionam, é mais fácil que eles consigam manter as odds sempre o mais ajustadas possíveis à realidade. Esse acompanhamento faz com que seja mais complicado você fazer apostas de valor, a longo prazo.

O poder do dinheiro na variação das odds nas apostas

Finalmente, outra componente determinante para a variação das odds, nas apostas esportivas online, é sem dúvida o poder e a influência do dinheiro dos apostadores. Ou seja, o jogo até pode ainda não ter iniciado, mas existe muito dinheiro entrando na equipe que está jogando em casa.

Imediatamente, esse dinheiro vai fazer com que a odd desça de valor, pois é necessário que a casa de apostas dê uma maior recompensa às outras opções desse mesmo mercado. Acima de tudo, essas oscilações de odds, devido ao “peso do dinheiro” acontecem pois os operadores não querem estar demasiado expostos financeiramente.

É possível fazer apostas online com odds desajustadas?

A resposta é sim. Quanto maior for seu conhecimento de uma equipe ou de um esporte, mais facilidade você terá em encontrar apostas de valor. Ou seja, fazer apostas online com odds que estão acima da realidade. A longo prazo, se fizer muitas apostas de valor, poderá se conseguir tornar um apostador lucrativo. Será mais fácil você encontrar odds desajustadas em esportes ou equipes que não são tão seguidas pelos apostadores recreativos.

Jogo – Podemos apostar nele?

O mundo dos jogos de azar é muito parecido com o das drogas. Você não injeta, fuma nem cheira as apostas, mas, se quiser, tem ao seu dispor jogatinas legais como a bebida ou ilegais como a cocaína. Existem também jogos viciantes como o crack e outros menos perigosos. Há quem aposte durante a vida inteira sem qualquer problema e há quem sinta tonturas, enjôos e depressão se passar um só dia longe de um caça-níqueis. Até os problemas sociais são parecidos: alguns acreditam que os jogos estejam intimamente ligados à criminalidade e outros não encontram relação alguma. Mas, acima de tudo, os dois – narcóticos e cassinos – movimentam bilhões e não se chega a um acordo sobre se o melhor é proibir ou liberar.

Existe, no entanto, uma grande diferença: a turma pró-jogo até agora está ganhando a partida no planeta. O Brasil está entre as exceções. Além de Cuba, somos o único país entre as principais nações turísticas que ainda não colocou todas as fichas em um negócio que, pelo menos à primeira vista, é uma mina de ouro. Os cassinos norte-americanos, por exemplo, faturam por ano mais de 30 bilhões de dólares. Será que estamos certos ou errados? Com a polêmica em torno dos bingos ainda fresca na memória (em março último, o governo Lula fechou as casas e depois teve que voltar atrás), esse é um bom momento para debater o assunto em toda sua complexidade médica, econômica, social e moral. É o que tentamos fazer nas próximas páginas.

Como nossas leis tratam os jogos de azar?

Em tese, o modelo atual é bastante simples: o governo federal detém o monopólio da jogatina no Brasil. Pode parecer um tanto fora de moda, mas é assim que a coisa funciona há mais de meio século. Desde então, se você lida com jogos de azar e não é o governo federal, você teoricamente é um contraventor. “No entanto, a lei não vem sendo cumprida. Até mesmo os estados desrespeitam a legislação vigente. As loterias estaduais se tornaram concorrentes diretas do governo federal”, diz Paulo Campos, Superintendente Nacional de Loterias da Caixa Econômica Federal.

Reza a lenda que a jogatina caiu em desgraça por obra da mulher do presidente Getúlio Vargas, Darcy Vargas. Um belo dia, ela teria voltado da igreja com a missão de convencer o marido a acabar de vez com um “antro de perversão”, o Cassino da Urca, a mais famosa casa de jogos do Rio de Janeiro, então capital federal. Lenda ou fato, a realidade é que em 1941 a lei 3688/41 botou na ilegalidade todo mundo que ganhava a vida girando roletas. Duas décadas depois, em meados dos anos 60, o governo estatizou de vez os jogos de azar, criando as loterias esportivas. A intenção na época era nocautear o jogo do bicho, que, apesar de fora da lei, ia muito bem. O tiro não acertou o alvo, mas também não saiu pela culatra. O jogo do bicho está aí até hoje, atualmente com três extrações diárias. No entanto, as loterias foram um sucesso e se transformaram em excelente fonte de renda. Só no ano passado, as nove modalidades existentes (Mega-Sena, Lotomania, Dupla Sena, Lotofácil, Quina, Instantânea, Loteria Federal, Loteca e Lotogol) arrecadaram juntas 3,5 bilhões de reais. Para comparar, o movimento de loterias nos Estados Unidos é de 44 bilhões de dólares e, na Europa, entre 7 e 10 bilhões de dólares.

Em 1993, o cenário da jogatina mudou e casas de bingo começaram a pipocar país afora. Estranho? Sim, mas não é difícil entender como isso aconteceu. Uma nova lei, apelidada de Lei Zico, abriu o precedente. No cargo de ministro dos Esportes, o ex-jogador do Flamengo adaptou para o Brasil uma experiência espanhola em que os recursos obtidos com bingos são revertidos para o esporte. A Lei Zico determinava que entidades esportivas oficiais, com a fiscalização do governo federal, poderiam operar casas de bingo desde que 7% do faturamento bruto fosse investido em programas sociais. Como as tais entidades esportivas não tinham dinheiro para viabilizar negócios tão vultosos, ficou estabelecido que seriam permitidas parcerias com a iniciativa privada. Daí novas leis surgiram, outras regras foram estabelecidas e não se criou uma legislação específica para uma modalidade de jogo que, no fim das contas, acabava com o monopólio do Estado sobre a atividade. Virou uma bagunça geral, com os bingos funcionando – até agora, diga-se – na fronteira entre a legalidade e a ilegalidade. Afinal, basta se associar a um clube ou federação e você já poderá desafiar a regra que proíbe o jogo no país.

Dos 108 países que formam a Organização Mundial de Turismo, somente dois proíbem o jogo: Cuba e Brasil. O caso cubano dispensa explicações. A ilha de Fidel Castro é um mundo à parte. Por aqui, a proibição da jogatina se sustenta em três pilares: jogo exige uma estrutura de fiscalização de que o país não dispõe, atrai a bandidagem e vicia. As justificativas fazem sentido: cassinos e afins são historicamente ligados a problemas sociais e criminalidade. Mas os defensores dos jogos de azar também têm seu arsenal de argumentos que, no mínimo, merecem ser levados em conta. Cigarro e álcool também causam dependência e problemas sociais e nem por isso são proibidos. Por que então banir somente o jogo? É quando começa então a disputa em torno de cada um dos três argumentos.

O primeiro ponto – o de que a jogatina é muito difícil de se regular – tem bastante verdade. “Quando conseguimos comprovar uma irregularidade em uma empresa de bingos, ela desaparece e outra brota no lugar, o que torna impossível recuperar os impostos sonegados. Os donos são geralmente laranjas. Não temos nem como executar bens”, diz o secretário-adjunto da Receita Federal, Paulo Ricardo Souza Cardoso. Ele, que lida no dia-a-dia com os obstáculos para controlar a jogatina, diz que existem motivos suficientes para banir o jogo. “Posso garantir que essas casas sonegam, operam com equipamentos contrabandeados e, em muitas delas, a sorte do cliente é manipulada”, afirma. O ex-secretário da Receita Federal e hoje consultor tributário Everardo Maciel compartilha da opinião. “Pode um país em desenvolvimento, com tanta demanda de fiscalização, desviar recursos humanos e financeiros para o controle de uma atividade de alto risco? É uma visão ingênua, de quem está fora da máquina do governo, imaginar que há condições de fiscalizar um setor com tamanha tradição de corrupção”, diz.

O fato é que um mínimo de controle já traz bons resultados. Entre 2000 e 2001, os bingos foram fiscalizados pela Caixa Econômica Federal e, nesse período, a arrecadação de impostos girava em torno de 200 milhões de reais. Mas a Caixa logo saiu de cena por causa de um conflito de interesses: já controlava as loterias federais, concorrentes diretas dos bingos. “Depois que a CEF saiu do páreo, a arrecadação é praticamente insignificante”, diz Paulo.

Ok, a sonegação existe, mas nem todos concordam que erradicar os cassinos seja a única alternativa. No livro Teoria da Imposição Tributária, o jurista Ives Gandra, um dos mais renomados tributaristas do país, defende com unhas e dentes a liberação de toda e qualquer atividade que transite no limite entre a licitude e da ilicitude. Ele acredita que proibir diminui as receitas e estimula o crime organizado a assumir o controle (e os lucros) desses negócios. “A forma mais eficaz de desestimular uma atividade indesejável é a tributação elevada. Controle rigoroso e muito imposto são melhores para um país do que a clandestinidade”, diz Ives. Atualmente, como não há leis específicas, as casas de bingo pagam praticamente os mesmos impostos de um negócio qualquer. No caso do cigarro e da bebida, a história é diferente. De cada cinco cigarros vendidos, o governo abocanha quatro. Dependendo do tipo de bebida, paga-se até 75% do valor total.

A segunda questão do debate, a relação entre o jogo e o crime, também é polêmica. O principal ponto é a possibilidade de se utilizarem as casas de jogos de azar para a lavagem de dinheiro de outras operações ilícitas. Para o norte-americano James Wygand, ex-presidente no Brasil da Control Risks, uma das maiores empresas de investigação de riscos do mundo, não há dúvida de que jogo é um ramo que facilita a ação do crime organizado. Mas isso não seria uma razão para proibir o negócio. “Locais onde o giro de dinheiro em espécie é grande são propícios para lavar dinheiro. O problema, no entanto, não é do jogo em si. Nos Estados Unidos, a máfia já foi afastada dos cassinos. Depende de ação”, diz. Em tese, lavar dinheiro em apostas é bastante simples: basta combinar com o dono da casa e simular um prêmio. Com o comprovante de que o dinheiro foi ganho no jogo, o dinheiro, de onde quer que ele tenha vindo, sai limpinho. Só que, na prática, pode não ser tão vantajoso. “Lavar dinheiro em bingo é burrice e sai caro. O ganhador paga 30% de imposto sobre o valor do prêmio. Tem formas bem mais baratas”, garante Olavo Sales Silveira, presidente da Associação Brasileira de Bingos (Abrabin). Resta então o terceiro argumento a favor da proibição – o vício.

Taí uma pergunta que não gera polêmica. Entre os estudiosos, a resposta é um consenso: jogo, assim como álcool ou cocaína, pode causar dependência. A inclusão oficial do vício em jogatina no rol das patologias aconteceu em 1992, quando a Organização Mundial de Saúde botou o jogo compulsivo no Código Internacional de Doenças. Mas há muito tempo já se suspeitava que jogar faz mal à saúde.

No ensaio intitulado “Dostoiévski e o Parricídio”, escrito em 1928, o psicanalista Sigmund Freud associou o descontrole do escritor russo Fiódor Dostoiévski nas roletas aos eventos traumáticos de sua vida, principalmente a morte do pai. Para Freud, Dostoiévski, o jogador mais célebre da história, não jogava por dinheiro. Jogava porque era um viciado. A melhor descrição da sua compulsão está em seu livro O Jogador, de 1866, época em que não conseguia se afastar dos cassinos. “Com que emoção, que aperto no coração, eu ouvia os números do crupiê. Com que avidez eu olhava a mesa de jogo, na qual são esparramadas pilhas de peças de ouro que se desmancham sob o rodo em montes reluzentes como brasa. Antes mesmo de alcançar o cassino, só mesmo de ouvir o tilintar das moedas, eu me sentia prestes a desfalecer”, escreve Dostoiévski em um trecho do livro.

Se não fumamos, bebemos, cheiramos ou injetamos apostas, como nos viciamos em jogo? Para responder a questão, cientistas da Universidade Harvard (que, aliás, foi criada com o dinheiro do jogo), nos Estados Unidos, realizou uma experiência elucidativa. Eles deram cocaína a uma pessoa e uma máquina de apostas a outra e analisaram os dois com ressonância magnética funcional, uma parafernália que mede a atividade em cada parte do cérebro por meio do fluxo sanguíneo em cada região. O resultado foi que a cocaína e a máquina de apostas ativavam as mesmas estruturas cerebrais. “Quando um jogador está em ação, ele fica superexcitado, provocando no cérebro um aumento exacerbado de dopamina (neurotransmissor associado ao prazer). Quando ele pára de jogar, os neurônios alterados pedem mais dopamina, assim como pedem mais cocaína a um viciado na droga”, afirma a psiquiatra Valéria Lacks, do Programa de Atendimento ao Dependente (Proad), da Universidade Federal de São Paulo.

Não se sabe com precisão o número de jogadores compulsivos no Brasil – o que normalmente se faz é uma estimativa com base no tamanho do problema em outros países. Segundo a OMS, em sociedades urbanas desenvolvidas, 80% da população adulta faz uma fezinha pelo menos uma vez por ano. Desse mundaréu de jogadores esporádicos, 3% enfrentam problemas por causa de jogo, como dívidas ou desentendimentos familiares, e 2% são efetivamente doentes. Fazendo as contas, temos 4,08 milhões de potenciais jogadores patológicos e 2,72 milhões de viciados entre nós. Embora a ciência ainda não explique por que algumas pessoas viciam em jogo e outras não – já que praticamente todo mundo joga –, existem alguns indícios que lançam um pouco de luz na escuridão. Sabe-se que filhos de pais acoólatras têm predisposição a jogar. E que pessoas que são expostas freqüentemente a jogos de azar, como quem mora perto de um cassino, também. Os outros fatores de risco são: personalidade impulsiva, tendência ao isolamento, ansiedade e depressão. “Os jogadores patológicos têm perfil parecido. São pessoas muito inteligentes e estáveis financeiramente. Quando sofrem algum trauma, se descontrolam e destroem a vida no jogo”, diz a psicóloga Juliana Bizeto, do Proad.

O mundo dos jogadores compulsivos é bem mais sombrio do que imaginamos. Em estágios avançados da doença, eles sofrem com crises de abstinência: sudorese, tremores, náuseas, depressão aguda e até mesmo ataques cardíacos. Cerca de 18% deles tentam o suicídio. Assim como os dependentes de drogas, os viciados em jogo também se isolam do mundo, perdem o interesse pela família e pelo trabalho e só conseguem obter prazer apostando. Basta ir a uma reunião do Jogadores Anônimos, JA (no Brasil, são 14 grupos, espalhados em sete estados), para se ter a noção exata da ruína financeira, moral e física provocada pela jogatina. “Em 20 anos de jogo, perdi muito mais que dinheiro. Perdi o caráter. Só estou aqui porque fui parar na cadeia. Sou biomédico e minha sócia me denunciou por desvio de dinheiro no laboratório”, diz um homem de 45 anos. “A minha única inspiração na vida era o jogo. As máquinas caça-níqueis foram a minha ruína. Com elas arrumei o jeito ideal de perder dinheiro e de me destruir. Vim para cá depois de tomar mais de 100 comprimidos para dormir. Eu queria dormir para sempre”, afirma uma moça de 32 anos.

Sim. Mas, do ponto de vista médico, existem jogos leves e jogos pesados, tal como as drogas (veja a tabela à esquerda). Máquinas caça-níqueis, por exemplo, são consideradas o crack da jogatina. Segundo os estudiosos, entre 40% a 60% das pessoas que usam freqüentemente essas máquinas tornam-se compulsivas. Já as loterias seriam, digamos, a maconha. Não fazem bem para a saúde, mas também não causam grandes danos. “Quanto maior o intervalo entre a aposta e o resultado, menos viciante é o jogo. O resultado das loterias demora uma semana para sair. Então elas não são um grande problema. Nos jogos eletrônicos, o tempo é de microssegundos. A rapidez alimenta a compulsão”, explica Hermano Tavares, psiquiatra e fundador do Ambulatório do Jogo Patológico e outros Transtornos do Impulso (AMJO), do Instituto de Psiquiatria da USP.

Mas não é só a rapidez nos resultados que faz um compulsivo. Outros detalhes interferem, como o barulho de moedas caindo nas maquininhas caça-níqueis. “Alguém já viu cair notas?”, pergunta a psicoterapeuta Thais Grace Maluf, do Proad. “Os apostadores recolhem o dinheiro em baldes. Isso aumenta a sensação de ganho e, conseqüentemente, a vontade de jogar”, diz. Ela relata um teste feito nos Estados Unidos em que colocaram lado a lado duas máquinas, uma com barulho e outra silenciosa. “As pessoas jogaram menos nas máquinas sem barulho”, afirma Thais. O ambiente dos cassinos e bingos também são considerados fatores de risco. “Os jogadores ficam extremamente confortáveis. Algumas casas oferecem bebida e comida de graça. Como não há relógios ou janelas por ali, perde-se facilmente a noção de tempo”, diz a psicóloga Regina Britzky De Sorde, também do Proad. “Tudo é preparado para seduzir. E o intervalo de apostas, claro, é o menor possível. Normalmente nem esperam a pessoa saber se perdeu ou ganhou para iniciar outra rodada”, diz.

A distinção entre jogos leves e pesados criou até mesmo uma opção diferente de tratamento para os jogadores compulsivos. O novo conceito não propõe como meta que o jogador abandone o vício de uma vez por todas. A idéia é apenas reduzir os danos. É a mesma lógica de se oferecerem seringas a viciados em drogas injetáveis para evitar a aids. “No caso dos jogadores, mostramos opções de modalidades de jogo menos aditivas”, afirma a psicóloga Juliana.

Proibir resolve o problema da dependência?

Muito pouco se sabe sobre a relação entre a facilidade de jogar e o jogo compulsivo. Pesquisadores defendem a relação como fato, mesmo sem pesquisas conclusivas sobre o tema. De tempos em tempos, surgem estudos que levantam a discussão. Pesquisadores da Escola de Medicina de Auckland, Nova Zelândia, por exemplo, fizeram o seguinte teste em 1996: analisaram ligações recebidas por um centro de apoio a jogadores patológicos seis meses antes e seis meses depois da inauguração do segundo cassino da Nova Zelândia. O número de chamadas aumentou de 510 para 826. Nos primeiros seis meses, 25% das ligações estavam relacionadas a corridas de cavalos e de cachorros, 49% a máquinas caça-níquel, 24% a cassinos e 2% se referiam a outras modalidades de jogo. Na segunda metade do trabalho, os telefonemas mencionando cassinos saltaram de 24% para 44%.

“Antes da liberação dos jogos de azar em praticamente todos os Estados Unidos, era facilmente perceptível a prevalência de jogadores patológicos nos locais onde a lei favorecia a exposição às apostas. Atlantic City, por exemplo, tinha a maior incidência de doentes do país”, diz Hermano Tavares, psiquiatra e fundador do AMJO. “O número de jogadores patológicos que atendemos quadruplicou com a abertura de casas de bingo em São Paulo”, afirma a psicóloga Juliana Bizeto, do Proad.

Como faltam provas e sobram indícios, muitos países onde o jogo é liberado estão alterando suas leis aqui e acolá na tentativa de diminuir o número de viciados e minimizar o impacto na sociedade. Na Austrália, país onde mais se joga no mundo (90% da população aposta pelo menos uma vez por ano), máquinas caça-níqueis e toda sorte de versões eletrônicas dos jogos de azar estão espalhados pelas cidades, em bares ou boates. O governo, no entanto, já acenou com a possibilidade de confiná-las apenas a lugares restritos ao jogo – ou seja, a cassinos.

“A legalização do jogo, de fato, trouxe muito lucro para o país. O dinheiro que antes abarrotava o bolso de criminosos agora enche os cofres públicos. Mas há uma conseqüência muito relevante nesse debate. O governo se tornou extremamente ambicioso na exploração de uma atividade que claramente causa problemas sociais”, afirmou o economista Peter Reuters, da Universidade de Maryland, Estados Unidos, no livro Drug War Heresies (“Heresias da Guerra contra as Drogas”, inédito no Brasil). Liberal convicto, Reuters defende que, mesmo que o jogo gere renda, o Estado não pode se tornar também um jogador compulsivo. Tem, sim, que impor limites.

À primeira vista, jogos de azar são uma mina de ouro. É uma das indústrias que mais crescem nos Estados Unidos. Durante a década de 90, o faturamento dos cassinos mais que triplicou – saltou de 8,7 bilhões para 31,8 bilhões de dólares. Há uma década, havia roletas em apenas 20 cidades norte-americanas. Hoje existem cassinos em 200 cidades e a expectativa é de mais crescimento. A previsão de faturamento para 2004 dos cassinos de Las Vegas, meca dos jogadores, gira em torno de 7,6 bilhões de dólares. Atlantic City, outro reduto da jogatina, espera 4,4 bilhões. No geral, os cidadãos daquele país gastam atualmente mais dinheiro jogando que na soma dos gastos em entretenimentos como cinema, jogos esportivos, parques de diversões, compra de CDs e de livros.

No entanto, qualquer que seja o jogo, existe uma pessoa que perde para cada pessoa que ganha – e a regra continua valendo mesmo nessa escala de bilhões de dólares. É por isso que alguns pesquisadores começaram a investigar o desvio do dinheiro de outras atividades econômicas para a indústria da jogatina. Uma das principais pesquisas nesse ramo foi feita pelos economistas Earl Grinols, da Universidade de Illinois, e David Mustard, da Universidade da Geórgia, ambas nos Estados Unidos. Segundo eles, não se pode contabilizar o lucro dos cassinos sem subtratir do balancete final algumas pendências, como o efeito negativo das roletas em outros tipos de negócio, o gasto com jogadores patológicos e o aumento de criminalidade nos locais de jogatina. Botando tudo na ponta do lápis, os dois economistas calculam que os custos superam os ganhos em 27,5 bilhões de dólares todos os anos. “Essa é uma história engraçada. Em Atlantic City, há alguns anos, ficou muito famoso o caso do roubo de geléias e pães dos hotéis. A polícia descobriu que os funcionários perdiam todo o salário na roleta e, para não apanhar em casa, assaltavam a despensa”, diz o economista americano James Wygand, da Control Risks.

É claro que grande parte da discussão em redor do jogo – assim como acontece com as drogas – envolve questões morais e os valores de cada pessoa. Mas é essencial considerar todos os fatores econômicos, sociais, médicos e legais antes de defender um lado ou outro. Qualquer que seja a decisão, ela irá alterar o destino de milhões de pessoas e de bilhões de dólares. Pode apostar.

Rodada por rodada

A evolução das apostas na história

Velho e Novo Testamento fazem referência ao jogo, assim como a literatura clássica de boa parte das culturas. O Mahabharata, livro sagrado hinduísta de mais de 5 mil anos, conta a história de um rei indiano que apostou e perdeu as posses, o reinado, a esposa e, por fim, a liberdade

Torna-se popular na Europa o primera, jogo de cartas que daria origem ao pôquer dois séculos depois

A rainha Elizabeth I da Inglaterra cria a primeira loteria estatal do mundo. Já havia as particulares na Europa desde a Idade Média

Os ingleses exilados na América do Norte trazem na bagagem a experiência da terra natal. Loterias são amplamente usadas para arrecadar fundos nas 13 colônias. Harvard, a primeira universidade americana, é financiada pelo jogo

O psicanalista Sigmund Freud dá o primeiro passo para que o jogo compulsivo entre no rol de doenças oficialmente reconhecidas. No ensaio “Dostoiésvki e o Parricídio”, ele levanta a tese do jogo como vício

O governo Getúlio Vargas põe na ilegalidade todo mundo que ganhava a vida girando roletas no Brasil. Os jogos de azar entram na lista de contravenções penais do Código Penal

Um norte-americano chamado Jim W, inspirado nos Alcoólicos Anônimos, cria os Jogadores Anônimos

O jogo é estatizado no Brasil. O governo lança as loterias federais na tentativa de acabar com o jogo do bicho

O jogo entra para o Código Internacional de Doenças, da Organização Mundial de Saúde

Cartas na manga

Os argumentos contra e a favor da legalização dos jogos

Para o secretário-adjunto da Receita Federal, Paulo Cardoso, casas de bingo sonegam impostos. Como os donos são, na maioria, “laranjas”, fica impossível até mesmo executar bens para cobrir o prejuízo

O Brasil não tem estrutura para controlar jogos de azar, atividade que historicamente é ligada à corrupção

Cassinos e afins são lugares propícios para a lavagem de dinheiro porque lidam com muito dinheiro em espécie, o que facilita truques de contabilidade

Jogo causa dependência. A patologia já foi reconhecida pela Organização Mundial de Saúde e atinge, em média, 2% dos jogadores

Há estudos comprovando a relação entre facilidade de jogar e jogadores patológicos. Lugares onde a lei favorece o jogo têm mais viciados

Nas contas da Associação Brasileira de Bingos (Abrabin) o Estado deixaria de ganhar 1,3 bilhão de reais em impostos se proibisse de vez a atividade. E ainda exterminaria 120 mil empregos

Com ou sem o aval legal, a jogatina acontece. Criar leis e meios para fiscalizar desvia os lucros de criminosos para os cofres públicos

Lavar dinheiro nas casas de bingo não vale a pena. Mesmo que se consiga simular os prêmios, os impostos pagos sobre eles são muito altos

A alta tributação é melhor que a proibição no combate ao vício. Além disso, cigarro e álcool também viciam e nem por isso são proibidos

O problema de uns não pode ser argumento para proibir o entretenimento de outros

Ranking do jogo

Os tipos de apostas mais viciantes

Quanto mais rápido o resultado da aposta, mais viciante ela se torna. Veja abaixo a lista dos jogos mais perigosos

2º Caça-níqueis ilegais em bares, padarias e estabelecimentos comerciais populares

Para saber mais

Os Impostos do Pecado – Sérgio Vasques, Universidade de Coimbra, Portugal, 1999

Drug War Heresies – Robert J. MacCoun e Peter Reuter, Cambridge University Press, EUA, 2001

O psiquiatra Hermano Tavares e o jurista Ives Gandra apresentam argumentos contra e a favor da liberação do jogo no Brasil. Ligue: (31) 8801 1234, código 151. A ligação é tarifada.

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Um orifício no muro do topo do Estádio da Tapadinha, em Lisboa, permite espreitar para o relvado daquele que já foi um dos recintos desportivos mais emblemáticos da capital. Mas o campo do Atlético Clube de Portugal, um clube histórico — dos 15 com mais participações na Primeira Liga —, exibe claros vestígios de decomposição: as paredes descascadas, ervas a nascer nas bancadas e painéis publicitários em derrocada. “É como se um vírus tivesse entrado pelo portão e consumido lentamente o corpo do clube”, diz José, um adepto que leva o filho aos treinos. Uma figura de estilo que não foge muito dos factos: em 2013, a antiga direção do Atlético, liderada por Almeida Antunes, vendeu 70% da SAD à Anping Football Club Limited, uma empresa sediada em Hong Kong e propriedade do chinês Mao Xiaodong (conhecido no Ocidente como Eric Mao), já indiciado pela UEFA por fortes suspeitas de corrupção na combinação de jogos para apostas. O preço: 175 mil euros, dos quais apenas 50 mil foram pagos. Desde então, o Atlético desceu duas divisões, desmembrou-se entre SAD e clube (tem duas equipas, uma da SAD e outra do clube), perdeu sócios, enterrou-se em dívidas e foi investigado por suspeitas de manipulação de resultados.

Na bancada, junto à secretaria, o presidente recém-eleito, Ricardo Delgado, de 38 anos, olha em redor na tentativa de encontrar uma solução para salvar a instituição. “O Atlético foi sequestrado tanto financeiramente, com várias contas por pagar, como desportivamente, porque o regulamento não permite que a equipa do clube [na 2ª divisão distrital] ultrapasse a da SAD [duas ligas acima, na Divisão de Honra da Associação de Futebol de Lisboa]. Nós só queremos distância em relação aos investidores e restituir a honra ao clube”, diz. Uma distância que é facilmente comprovada na secretaria — os gestores da SAD foram expulsos do estádio, não há números de telefone e mesmo a correspondência, com muitas dívidas, é devolvida à procedência.

Em maio de 2016, Armando Hipólito, acabado de ser empossado como presidente, perdeu a paciência e fechou a cadeado as instalações da Tapadinha usadas por Xialong “Bruce” Ji e Xinxin “Nancy” Cao, os representantes de Eric Mao em Alcântara. “O ‘Bruce’ é um homem sem qualquer dignidade, sem escrúpulos”, acusa Hipólito. “Pressionava os treinadores para colocar em campo os jogadores que queria e chegou a forçar a entrada no balneário. Nas reuniões, olhava para o teto, desprezando completamente o que lhe dizíamos. Nunca deu um cêntimo para o aluguer das instalações e tinha à porta um carro alugado que nunca pagou. Tivemos de ligar à empresa para vir cá buscar a viatura.” Mao raramente foi visto pela Tapadinha. “Nancy” deixou de aparecer em novembro de 2015. “Bruce” Ji acabou por se tornar o único rosto asiático da SAD. Envolveu-se em muitos conflitos: acabou a primeira época aos empurrões com o treinador Jorge Simão, que viria a orientar o Sporting de Braga, e levou mesmo uma bastonada na cabeça de Fernando Piedade, à época vice-presidente do clube. “Mas fizeram as pazes e hoje são amigos”, diz um ex-dirigente. Hipólito afirma que o chinês nunca ostentou uma vida faustosa e que mandava vir pizzas quase todos os dias para o seu escritório.

“Não podemos pensar nestas pessoas como elementos da máfia clássica, bem vestidos, com bons carros e em restaurantes caros. Muitos destes tipos, e este deve ser mais um caso, são jogadores compulsivos, arrastados para redes internacionais de manipulação de resultados. Todo o dinheiro que ganham nos jogos que combinam acabam por gastá-lo em apostas normais”, diz o italiano Francesco Baranca, secretário-geral da Federbet, uma organização que monitoriza as apostas desportivas online e luta contra os jogos combinados.

Baranca foi dos primeiros a alertar para os perigos do investimento chinês no Atlético, mesmo antes de a UEFA, em 2014, ter enviado às autoridades desportivas portuguesas um documento secreto que denunciava os antecedentes de jogos arranjados por Eric Mao na Letónia e na Estónia e as suas prováveis ligações a Wilson Raj Perumal, um antigo cabecilha do Sindicato de Singapura — a mais prolífera organização de fraude em apostas desportivas —, que viciou largas centenas de partidas em todo o mundo. A carta acabou por ser revelada no Football Leaks. “Eric Mao é uma personagem suspeita com ligações próximas a jogos combinados. Ele é CEO da Anping Football Club Limited e dono do Beijing Glory FC e é também suspeito de manter negócios na Estónia e na Letónia”, escreveu o Sistema de Deteção de Fraude nas Apostas (BFDS).

“As organizações criminosas atuam a partir de diferentes zonas do globo, com destaque para a Ásia, onde estão sinalizados alguns dos principais rostos da criminalidade associada à viciação de resultados e onde são detetados os mais elevados volumes de apostas” diz Joaquim Evangelista, presidente do Sindicato de Jogadores Profissionais de Futebol (SJPF). “Estas organizações procuram intermediários nos países em que querem atuar, sejam agentes, dirigentes, árbitros ou jogadores. Pretendem construir parcerias e criar relações de confiança para garantir como resultado final a manipulação dentro de campo.” Segundo dirigentes do Atlético, a Anping de Mao chegou a Alcântara através do treinador Nelo Vingada, ex-jogador do clube, e do atleta guineense Almani Moreira, ex-Boavista e que viria a representar o Atlético entre 2013 e 2015, ambos com passagens pela China.

De acordo com o “Asian Times”, jornal de Hong Kong, Mao ajudou Vingada a recuperar dinheiro quando o clube que então treinava, o Dalian Shide, colapsou devido à prisão e posterior morte do seu proprietário, Xu Ming, em consequência de um escândalo político. Como contrapartida, o técnico introduziu o chinês à direção do Atlético e assumiu a presidência da nova SAD no seu primeiro mês de vida. Confrontado com a ligação na sua recente apresentação como selecionador da Malásia, Vingada comentou: “Eu não tenho relação com Mao [. ]. O presidente do clube, e não Mao, perguntou-me se eu podia ajudar, devido à minha experiência na China. Eu aceitei porque tinha jogado no clube.” De qualquer das formas, ninguém, desde a direção do Atlético a Nelo Vingada, passando pela Federação Portuguesa de Futebol (FPF) ou pela polícia, se apercebeu do potencial fraudulento do acordo. “Existem diversos fatores que tornam as competições em Portugal vulneráveis à manipulação de resultados. Do lado dos clubes, as dificuldades financeiras, potenciadas por uma gestão irresponsável e pela dificuldade em obter financiamento por vias normais, facilitam o aparecimento de investidores que fazem depender os apoios concedidos ao envolvimento nestas práticas. Os clubes tornam-se reféns destas organizações criminosas. Do lado dos jogadores, quanto mais precária for a sua situação contratual, com salários em atraso, maior é a vulnerabilidade. Destacam-se ainda contextos de dependência, o vício no jogo e no álcool, por exemplo, que culminam no endividamento dos agentes desportivos”, explica Evangelista, que defende um maior rigor na identificação dos investidores estrangeiros.

“Defendemos que o regime jurídico das SAD deve merecer uma reflexão, por forma a tornar mais transparente a proveniência dos capitais e, consequentemente, a garantir um maior controlo e fiscalização.” Foi recentemente criada uma linha de denúncia anónima para jogadores aliciados para viciar resultados, gerida pelo SJPF e pela FPF, no âmbito do programa “Deixa-te de Joguinhos”.

O guarda-redes letão Igors Labuts, sinalizado 17 vezes por viciação de resultados, foi das primeiras contratações do Atlético quando os chineses chegaram ao clube

Quando os sócios do Atlético se aperceberam do erro, era tarde demais. Ao plantel tinham chegado jogadores como o guarda-redes letão Igors Labuts, sinalizado 17 vezes por viciação de resultados, ou Ibrahim Kargbo, capitão da seleção da Serra Leoa, suspenso da equipa nacional pelo mesmo motivo. Uma longa investigação do jornal romeno “Gazeta Sporturilor” coloca ainda os futebolistas Silas, ex-internacional português, bem como o já referido Almani Moreira na lista de jogadores do Atlético indiciados pela BFDS. “Já na altura, havia coisas demasiado evidentes. O guarda-redes letão fartava-se de dar frangos”, diz Armando Hipólito. “Na derrota por 3-2 contra o Oriental, em que a Polícia Judiciária fez detenções no fim do encontro, deixou passar uma bola por baixo dos braços. E, já esta época, pareceu-me muito suspeita a derrota por 8-0 contra o Casa Pia.” No entanto, e apesar de as agências internacionais terem registados movimentos pouco usuais de apostas em alguns jogos do Atlético, nada foi provado. O Atlético ainda tentou em tribunal reaver os 70% que tinha vendido: perdeu, porque a direção esqueceu-se de formular o protocolo de colaboração indispensável para o negócio. Eric Mao e “Bruce” Ji continuaram no poder.

Com o passar do tempo, conseguiram angariar algum apoio. José Francisco, diretor comercial de uma empresa de brinquedos e pai de um antigo jogador do clube, aproximou-se da cúpula chinesa. “Passou a andar atrás do ‘Bruce’ para todo o lado, acompanhava-o nas reuniões, embora não tivesse qualquer cargo oficial na instituição”, diz um ex-dirigente. Essa convivência terá levado à constituição da Pré Season, Unipessoal, Lda., com Francisco como CEO, uma empresa sediada num 5º andar de um bairro residencial da Amadora, com atividade aberta para a organização de feiras, congressos e outros eventos familiares. No entanto, a principal ação da nova companhia foi o acordo com o Athlone Town, um clube da segunda divisão irlandesa, investigado por viciação de resultados e tido como mais uma peça da rede mafiosa comandada por Mao (ver caixa). Francisco tem outra teoria: diz que a Pré Season não tem participação chinesa, que saiu do Athlone passados três meses devido a problemas entre os jogadores locais e os estrangeiros e que não só não foi contactado pelas autoridades como foi a sua empresa que chamou a polícia ao estádio da equipa. “A Pré Season estabeleceu um acordo de cooperação com o Athlone virado para as mais-valias dos atletas que lá colocámos. Foi dada uma lista de jogadores, e eles escolheram os que queriam. Nunca tive nada a ver com apostas desportivas”, diz. Para o emblema britânico, transitaram antigas caras conhecidas de Alcântara: o treinador Ricardo Cravo, os jogadores José Viegas e Dery Hernández e, pasme-se, o guarda-redes letão Igors Labuts, que entretanto tinha ido fazer uma época à Letónia, no Spartaks Jurmala, também na lista de possíveis batoteiros, além do técnico português Ricardo Monsanto, que saiu numa fase prematura da época. “Não fui eu que coloquei o Igors no Athlone. O facto de ter jogado anteriormente no Atlético não passa de coincidência”, alega José Francisco. As autoridades irlandesas oficializaram no passado dia 7 de julho a acusação sobre quatro elementos do Athlone — três jogadores e um elemento da equipa técnica —, embora não sejam ainda conhecidas as suas identidades.

Um jornal de Hong Kong envolveu o treinador português Nelo Vingada com Eric Mao, um dos principais cabecilhas do negócio mundial de apostas em jogos de futebol

Já “Bruce” Ji, continuava o seu processo de integração em Portugal. Residia na Ajuda e não lhe eram conhecidos muitos amigos. Exceto um: Omar Scafuro, o italiano de origem libanesa que, no final de 2013, tomou conta do Beira-Mar. “Ele falava muito dele e dizia que eram próximos”, testemunha Admar Hipólito, à época responsável pelo futebol da SAD do Atlético, que também saiu em conflito com os investidores asiáticos. Tal como Mao, Scafuro já era internacionalmente conhecido pelas suas burlas: em 1999, tentou comprar o Avelino, da série B italiana, alegando que tinha o apoio do AC Milan (provocando um famoso desmentido de Silvio Berlusconi, que disse que para ele “Avelino [no sul de Itália] é tão desconhecido como a Patagónia”), fugiu de Itália com 3 milhões de euros obtidos numa fraude financeira, e no Brasil fundou um obscuro clube de futebol chamado Leme. É daí que chega a Aveiro, trazendo com ele o filho adotivo, o brasileiro Willyan Barbosa (atual atleta do Vitória de Setúbal, formado no Leme, transferido para o Torino e depois emprestado ao Beira-Mar, que o acabou por comprar com uma cláusula de rescisão de 2 milhões de euros), e um carregamento de italianos: os jogadores Andrea Cocco, Manuel Daffara e Claudio Zappa, e ainda o treinador Daniele Fortunato, antigo futebolista da Juventus e da Atalanta. Parecia tudo bem, mas desconheciam-se dois pormenores: primeiro, que Scafuro não pagaria um tostão pelos 84,9% da SAD que tinha adquirido, que forjaria cheques e o patrocínio da Pieralisi, uma empresa industrial italiana; segundo, que as suas contratações transalpinas tinham em comum a passagem pelo Albinoleffe, o clube mais envolvido no “Scommessopoli”, o escândalo de fraude e viciação de resultados do futebol italiano, em 2011, que apurou que o emblema de Bérgamo estava totalmente nas mãos dos sindicatos asiáticos de apostas ilegais e da máfia italiana. Nessa equipa, jogou ainda o romeno Cristian Muscalu, ex-companheiro de equipa de Kargbo nos azeris do FC Baku, também suspeito de manipulação.

Scafuro deixou de pagar aos jogadores e aos restantes funcionários. Em março de 2015, demitiu-se da SAD, deixando em insolvência o Beira-Mar, uma instituição com mais de 90 anos com um estádio novo feito à medida do Euro-2004. Os aveirenses não conseguiram reunir os requisitos financeiros para se inscreverem nas ligas profissionais e caíram para os distritais. O italiano desapareceu — procurado em Portugal por fuga ao IVA e emissão de cheques em branco, foi localizado numa operação de trânsito na Roménia, onde disse estar a viver em Milão. Uma grande mentira. Assim que saiu de Aveiro, Scafuro assumiu a liderança da SAD do FC Academica Clinceni, da Roménia. Os investidores? A Anping, de Eric Mao. E mais uma época com enorme potencial para a viciação de resultados. Meses depois, o italiano voltou a desaparecer, deixando as roupas no estádio da equipa. O seu paradeiro é desconhecido.

Ricardo Cravo, à esquerda no banco do Athlone, transitou do Atlético para o clube britânico, levando vários jogadores

De amarelo e negro no Beira-Mar de Scafuro jogava o defesa central brasileiro Diego Tavares, que como os seus colegas, ficou com cinco meses de salários em atraso. No verão de 2015, transferiu-se para o Oriental, clube alfacinha, onde passou a ser um dos atletas mais bem pagos, com um salário de cerca de 1500 euros mensais. Mas Tavares não podia ter acabado a temporada em Marvila da pior forma: foi detido após a última jornada do campeonato por suspeitas de envolvimento no caso “Jogo Duplo”, que vai levar 28 agentes desportivos a tribunal como arguidos no maior escândalo nacional relacionado com viciação de resultados ligados a apostas. De acordo com o inquérito, o brasileiro desempenhou um papel central: foi ele que, entre outras incidências, aceitou os 30 mil euros propostos pela célula malaia a operar em Portugal — composta por Chun Keng Hong, Yap Thong Leong e Lim Gin Seng — para aldrabar o resultado do Penafiel-Oriental, disputado a 30 de abril de 2016. As autoridades acreditam que tudo estava feito para que o Oriental sofresse pelo menos dois golos na primeira parte (over 1.5) e mais de três golos no total do jogo (over 2.5), num ‘esquema’ intermediado por Carlos “Aranha” Silva, elemento da claque Super Dragões, e Gustavo Oliveira, ex-jogador de equipas amadoras do distrito de Aveiro. Tavares terá conseguido angariar três colegas de equipa: o guarda-redes Rafael Veloso e os defesas João Carvalho e André Almeida, com a promessa de 7500 euros para cada um. “Nós nunca suspeitámos de nada. Se isto se confirmar, é como ser traído pela própria mulher”, diz José Nabais, o presidente do Oriental, que abandonou recentemente a direção sem qualquer dívida e que viu a sua boa gestão reconhecida pela UEFA em 2014, aquando da realização da final da Liga dos Campeões em Lisboa, com a atribuição de um campo relvado ao clube. “Recordo-me de ver o Diego Tavares a rir-se ao telefone no final da partida, mas, no momento, estava longe de pensar que pudesse estar relacionado com isso.”

Wilson Raj Perumal, um conhecido viciador de jogos de Singapura, foi sócio de Eric Mao

O acordo terá sido selado numa chamada por videoconferência com Yap Thong Leong, que lhes terá prometido ainda um bónus de 5 mil euros por cada penálti assinalado. O trabalho foi realizado lentamente desde o apito inicial: nos dois primeiros golos, diz a investigação, Diego Tavares e André Almeida não ofereceram oposição aos adversários, e, no terceiro, Rafael Veloso dá um enorme ‘frango’, evidente nas imagens televisivas. “Por estar convencido de que Tavares teria recebido dinheiro para perder o jogo, o treinador do Oriental, Jorge Andrade, substituiu-o aos 58 minutos”, lê-se na acusação do DIAP. Sem problema, uma vez que os intervenientes julgavam que com o 3-2 os seus clientes estavam satisfeitos. Faltava, no entanto, um golo. Foi então que “Aranha” telefonou a Diego Tavares, que atendeu no balneário e lhe disse que já não podia fazer nada. O intermediário, em desespero, desceu a bancada para transmitir por gestos ao defesa esquerdo João Carvalho que três não chegavam. Era preciso sofrer o quarto golo. O lateral fica então especado à espera de um fora de jogo, enquanto Aldair Baldé, avançado do Penafiel, corre sozinho para a baliza para estabelecer o resultado final, já em período de descontos. “Aranha” e Gustavo Oliveira saíram do estádio aos saltos, a gritar golo. O resultado tinha valido centenas de milhares de euros aos seus patrões. De acordo com a acusação, verificou-se uma variação anormal das odds antes da partida, com incidência na derrota do Oriental por mais de três golos, tendo o live betting o mesmo padrão.

Nabais não sabe nada de apostas. Só sabe que teve de ouvir os sócios do seu clube gritarem “traidores” e “impostores” aos jogadores. Numa assembleia-geral, um referiu-lhe que neste caso imperava a presunção de culpa até se provar o contrário: todos envolvidos, ninguém é inocente. O presidente avançou com um pedido de indemnização de um milhão de euros a todos os que mancharam o nome do clube e, apesar da incredulidade de ter dois velhos jogadores da casa na lista de arguidos, só pede que se faça justiça: “Isto promove um clima de desconfiança insuportável. Hoje, quando um jogador falha um penálti, há quem questione se fez de propósito ou não. Tudo porque a sociedade apela ao facilitismo, publicita o jogo, o dinheiro fácil. Mesmo quem pode ganhar 500 a fazer o que gosta prefere fazer o que não gosta para ganhar 2000.”

Rui Dolores, de 39 anos, ex-jogador que representou, entre outros, o Boavista, o Paços de Ferreira e o Vitória de Setúbal, é outro dos arguidos do “Jogo Duplo”, suspeito de servir como intermediário nos negócios ilegais da célula malaia. No início da temporada 2014/2015, era treinador adjunto do Freamunde. Este podia ser o preâmbulo da investigação levada a cabo pela Federbet, a que o Expresso teve acesso, a uma das incidências mais escabrosas registadas nos últimos anos no universo mundial das apostas: o “jogo-fantasma” entre o Freamunde e a equipa espanhola do Ponferradina, virtualmente realizado na manhã de 4 de agosto de 2014. A partida foi anunciada no site do Freamunde, mas nunca podia ter acontecido, uma vez que os espanhóis não sabiam de nada e o clube nortenho havia jogado no dia anterior em Portimão, para a Taça da Liga. “Os jogos-fantasma são uma das formas de viciação utilizadas por grupos de crime organizado para ganhar ou lavar dinheiro”, diz um experiente corretor de apostas de uma casa com sede em Londres que preferiu o anonimato. “Podem ter ou não o envolvimento de um dos clubes em questão.” Inicialmente, suspeitou-se que um servidor ilegal tivesse introduzido o jogo no sistema, enganando as casas de apostas que disponibilizam as partidas aos seus utilizadores.

Contudo, a equipa da Federbet, que se deslocou a Portugal para investigar, chegou a uma tese diferente. “À mesma hora da partida, no campo marcado em São João de Ver, perto de Freamunde, jogaram duas equipas juvenis, com camisolas da Juventus, do Barcelona e do Real Madrid, e o resultado da partida foi o mesmo do do jogo-fantasma: 1-2”, diz Francesco Baranca. Surpreendidos pela coincidência, os especialistas quiseram saber mais: apuraram então que os jovens pertenciam a uma escola de futebol orientada pelo ex-adjunto do Freamunde Rui Dolores e que o responsável pelo campo tinha recebido 500 euros pelo aluguer. Confrontaram-no, mas ele não quis revelar mais nada. “Foi então que vimos um indivíduo a limpar o terreno e a olhar para nós. Parecia que queria dizer qualquer coisa. Discretamente, abordámo-lo, e ele disse-nos que contava tudo se lhe pagássemos umas cervejas”, diz Baranca. O funcionário do estádio relatou que lhe tinham entregue 20 euros para abrir a porta e que, na bancada, estava apenas um espectador, todo o tempo agarrado a um tablet. “Disse que estava a enviar informação sobre o jogo para a internet.” As campainhas de alarme soaram na cabeça da equipa da Federbet — para haver apostas em tempo real, as casas de jogo têm de enviar para o terreno um elemento para recolher informação sobre estatísticas e ocorrências da partida. Era tudo muito estranho. Assim, decidiram deslocar-se à sede do SC Freamunde para obter mais dados. O presidente do clube, Manuel Pacheco, não lhes levantou suspeitas, mas o mesmo não aconteceu com o diretor desportivo, Hilário Leal: “A primeira coisa que disse quando entrou na sala de reuniões foi: ‘Eu nunca apostei na vida.’ Mas, pouco depois, contou que era amigo dos Gaucci [clã italiano cujo patriarca é Lucciano Gaucci, o controverso ex-dono do Peruggia que contratou o filho de Kadhafi]”, afirma Baranca. Posteriormente, os oficiais da agência dizem ter recolhido indícios de que Hilário, tal como Dolores, era um apostador habitual. O dirigente do Freamunde defende-se: diz que não sabe nada sobre o jogo-fantasma, que nunca fez uma aposta e que os Gaucci são tão seus amigos como tantos outros italianos que conheceu durante a permanência em Peruggia. “Eu já fui ouvido duas vezes pela PJ e disse-lhes que fui sempre contra a manipulação de jogos no Freamunde, ao ponto de na altura ter recebido cartas com ameaças.” A ligação italiana não fica por aqui: o grosso de apostas no jogo que nunca existiu veio de uma faixa de terra entre Nápoles e Reggio Calabria, onde operam organizações mafiosas como a Camorra e a ’Ndrangheta. As apostas desportivas são muito usadas pelas máfias para lavagem de dinheiro — mesmo quando não conseguem obter ganhos com jogos viciados, o sistema permite-lhes diminuir as perdas abaixo dos 20%, um valor bastante apetecível nesta atividade.

Almeida Antunes, ao telefone, era presidente do Atlético quando a Anping, de Hong Kong, comprou 70% da SAD

O advogado Miguel Azevedo Brandão, atual presidente da SAD do Freamunde, diz que ainda se desconhece o que se passou em São João de Ver. “Ainda não estava no clube e, por isso, não estou a par do que aconteceu. Mas acho que a anterior direção foi chamada pela PJ para prestar depoimentos.” Azevedo Brandão tem razão: na altura em que aconteceu o incidente tinha acabado de mediar o acordo fraudulento entre Scafuro e o antigo dono do Beira-Mar, o iraniano Majid Pishyar, que chegou a acusar o português de conluio com o italiano (Scafuro utilizou a empresa Equação Troféu, com sede no endereço legal de Azevedo Brandão, para “encapotar a burla”, nas palavras de Pishyar). O advogado nega e diz-se igualmente enganado: “Era era bem falante, inteligente e vinha com uma multinacional italiana por trás. Não desconfiei. Depois, não pagou, eu não me revia naquilo e percebi que era um buraco sem fundo. Decidi sair.” Pouco tempo depois, o advogado voltou a trabalhar com investidores estrangeiros na compra de um clube português: desta feita, uma empresa argentina interessada no Freamunde. Concluído o acordo, foi convidado a assumir a gestão da SAD. “Como os dois argentinos não estavam cá a tempo inteiro e não conheciam o mercado português, optaram por me convidar para ficar e tentar fazer uma coisa em condições.” Porém, não lograram os seus objetivos: vender os jogadores argentinos colocados a rodar no clube. Entretanto, o Freamunde desceu ao terceiro escalão e os investidores querem desfazer-se do negócio. Ao contrário do que se passa em outros clubes, tudo indica que o Freamunde vai conseguir reaver o controlo da SAD. “Os clubes portugueses são apetecíveis, porque estão mais ou menos bem preparados e são baratos. O investimento estrangeiro é bem-vindo mas tem de ser regulado, tem de haver cuidado por parte das instâncias, saber de onde vem o dinheiro, as apostas e ilegalidades que possam surgir”, diz Azevedo Brandão, que liderou pessoalmente dois negócios ruinosos.

Os tentáculos deste gigantesco polvo das apostas chega a todo o lado e não dá sinais de fraqueza. O relatório de 2016/2017 da Federbet, que vai ser divulgado somente em setembro, sinaliza cerca de 500 jogos no mundo, cinco dos quais em Portugal: dois na Primeira Liga, o Feirense-Rio Ave (2-1) e o Paços de Ferreira-Feirense (0-1), e três na segunda, cujos detalhes não foram divulgados. A imprensa veiculou várias teorias sobre a suspensão de apostas nas duas partidas da Liga NOS: desde a jogada de 100 mil euros de um chinês na Póvoa de Varzim até ao registo de 50 mil euros no mesmo NIF em Santa Maria da Feira, passando por uma decisão unilateral da Santa Casa da Misericórdia, tutelar do Placard, apenas pelo alto risco financeiro. A Liga encarregou-se de descobrir o que se passou, mas o facto de a mesma equipa, o Feirense, estar envolvida nos dois incidentes levantou fumo para os lados de Santa Maria da Feira. Num comunicado oficial após a vitória contra o Paços de Ferreira, a SAD declarou: “Toda esta situação, além de voltar a colocar em causa o bom nome do futebol português, lançou dúvidas e suspeição de forma irresponsável sobre duas instituições de prestígio no panorama desportivo nacional [. ]. Em comum nas duas situações apenas dois aspetos — o envolvimento do nome do CD Feirense Futebol SAD e a insistência em apostas na vitória do clube de Santa Maria da Feira. O segundo aspeto, por si só, seria suficiente para confirmar o total alheamento dos elementos afetos a esta sociedade desportiva de toda e qualquer eventual polémica.” Baranca diz que não é bem assim: “Não querendo acusar ninguém, há inúmeros casos de equipas que compram outras e depois informam as redes de apostadores. É preciso investigar para afastar a suspeição.” O principal investidor do Feirense, o nigeriano Kunle Soname, é um entendido no assunto: fundou a Bet9ja, o equivalente nigeriano do Placard, que é um tremendo sucesso no país africano. Jorge Gonçalves, presidente do Conselho de Administração, diz que o tema não preocupa o clube: “Estamos de consciência tranquila, nem sequer temos um advogado a tratar disso. A Liga tomou conta das ocorrências e está a investigar.”

Não é nas divisões principais que o fenómeno é mais preocupante, mas sim nas secundárias, profundamente vulneráveis. Progressivamente, o espectro das apostas chega até às camadas jovens: é possível realizar apostas em partidas de sub-15. No futuro, talvez chegue às escolinhas e até aos videojogos, uma vez que já há companhias de apostas a posicionarem-se em Malta para se dedicarem às apostas em torneios da FIFA. Preso no meio desta teia, Ricardo Delgado pensa em refundar o Atlético. Em último caso, um novo nome, uma nova vida. “Há duas semanas, fui almoçar com o ‘Bruce’ e perguntei-lhe quanto queria pelos 70%, para nos vermos livres dele. ‘Um milhão’, respondeu. Afundou o clube, desceu-o duas divisões, manchou-lhe o nome e pede quase dez vezes mais do que o preço de compra.” Mesmo que o Atlético nasça outra vez, não fica a salvo de novos esquemas de manipulação. Ninguém está. Wilson Raj Perumal, o cabecilha da máfia das apostas, já disse mesmo que “o futebol arrisca-se a tornar-se uma espécie de wrestling, com tudo encenado”. Talvez seja um exagero, mas mais vale prevenir, porque esta realidade não vai parar de um dia para o outro. Muitos mais jogos serão viciados. Vai uma aposta?

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Perguntas e Respostas

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✅ Pedro Hubert explica que nem os jovens de 18 anos poderão estar preparados para lidar com este tipo de jogo.


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